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O Paradoxo do Navio de Teseu

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 10 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Coluna de Diego Franzen


Dizem os filósofos que paradoxo é pergunta sem resposta, quase uma pegadinha cósmica. É como aquele professor maldoso que entrega trabalho para casa sabendo que ninguém no planeta, nem Platão ressuscitado e turbinado por café forte e obrigado a fazer hora extra, conseguiria entregar.


E o mais divertido é que a ideia desta coluna nasceu assim, numa conversa com minha sócia Aline Cris Ambrosi, que costuma me lançar questionamentos como quem joga fósforos em palheiro, sempre trazendo um brainstorm irriquieto de grandes ideias. Mas também de uma prosa iluminada com amigos especiais na última terça feira, daqueles amigos que acreditam e lutam por um mundo mais justo e perfeito.


O navio de Teseu surgiu como protagonista dessa pequena rebeldia intelectual, porque ele é justamente uma dessas traquinagens inventadas pela humanidade para provar que pensar dá trabalho, mas desistir também dá. E é nesse limbo divertido que a reflexão começa, com o sorriso malicioso de quem sabe que não haverá resposta alguma no final e, ainda assim, insiste.


Diz a velha história que Teseu navegava em um navio tão glorioso que Atenas inteira decidiu conservá-lo como monumento. Mas o tempo, esse carpinteiro impiedoso, começou a apodrecer as tábuas, uma por uma. Trocaram a primeira. Depois a segunda. Depois a quinquagésima. Cem tábuas renovadas e ainda chamavam aquilo de navio de Teseu. Até que, passados anos, nenhuma madeira original restava. Não havia sequer um farelo do navio inicial.


Surgiu então a pergunta que atormenta filósofos e anima botequins. Se todas as peças foram substituídas, ainda é o mesmo navio? Ou virou apenas um enfeite glorificado com nome famoso?


A dúvida é deliciosa, porque destrói qualquer certeza. E o mais sarcástico é que o paradoxo não quer ser resolvido, quer apenas humilhar nossa pretensão de lógica.


E aqui entra a parte que irrita quem gosta de respostas. Dez anos atrás nenhuma célula que existe agora estava no seu corpo. Tudo se renovou. Pele, músculos, neurônios que sofreram com decisões duvidosas. Nada é o mesmo. E, ainda assim, você acorda acreditando que é você. Essa presunção identitária é quase poética. Ou patética. Talvez as duas coisas.


Então não é o corpo que sustenta a pessoa. Não é a madeira que sustenta o navio. Algo mais íntimo persiste, algo que os antigos chamariam de alma e que os modernos chamam de essência quando querem parecer profundos no Instagram.


Essa essência é aquela voz teimosa que atravessa seus dias, como uma lâmina de espada templária irredutível. Ela não se corrompe com o tempo, não se rende à ferrugem da idade, não se desmancha na chuva dos anos. Ela é o que se ergue quando tudo desmorona.


E é por isso que resistimos.


Vivemos em sociedade, esse teatro organizado onde cada um tenta parecer mais equilibrado do que realmente é.


Circulamos entre padrões comportamentais como quem escolhe máscara em baile veneziano. Fingimos, tropeçamos, rimos de nervoso, cometemos pequenos pecados éticos e prometemos que amanhã seremos melhores, sabendo muito bem que amanhã talvez seja um déjà vu constrangedor do hoje.


Mas seguimos.


Seguimos porque sonhar é alquimia pura.


É transformar chumbo em ouro, cotidiano em epopeia, boletos em esperança.


O sonho é a brasa secreta que nenhuma tempestade apaga. É o motor interno que empurra o cavaleiro mesmo quando o cavalo não colabora. E é também nele que reside a tal resiliência que todos adoram mencionar como se fosse um item de supermercado. Três unidades por vinte e nove e noventa, leve e enfrente a vida com coragem renovada.


E já que falamos em coragem, lembramos dos Doze Trabalhos de Hércules, o personal trainer oficial da mitologia grega. Entre eles, a Hidra de Lerna, criatura de cabeças múltiplas que representa tudo aquilo que você resolve e volta pior. A fila do banco, as conversas passivo agressivas de WhatsApp, as reuniões que poderiam ser um e-mail. Um relacionamento tóxico. Um vício. Corte uma cabeça e nascem duas. Hércules que o diga!


Mas, mesmo enfrentando monstros que desafiam a lógica e a vontade de viver, ele prosseguiu. Não porque tinha músculos, mas porque tinha propósito.


E esse é o ponto.


Os desafios sempre hão de vir.


Eles vêm com fúria, vêm sem pedir licença, vêm como se fossem donos da casa.


Mas jamais maculam a alma de quem carrega princípios.


A madeira pode ser trocada, o casco pode ser remendado, o corpo pode adoecer ou cansar.


Nada disso define quem você é.


O que define é a centelha que permanece intacta enquanto tudo ao redor muda. A mesma centelha que move cavaleiros, alquimistas, filósofos, teimosos e sobreviventes.


No fim, talvez sejamos todos pequenos navios de Teseu navegando em mares temperamentais.


Mudados, remendados, reconstruídos.


E, ainda assim, essencialmente nós. Porque a essência não se troca. Não apodrece. Não se perde.


Tudo ao redor pode ser desmontado. A alma, nunca.


Diego Franzen é jornalista, escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista, escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana

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