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O peregrino de Andaluzia

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 5 de ago.
  • 3 min de leitura

Coluna de Diego Franzen


Há livros que não passam. Permanecem. Não são consumidos, mas ruminados pela alma. São como espadas cravadas no dorso da História: ferem, iluminam, encantam. Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes Saavedra, é uma dessas raras obras que, ao mesmo tempo em que sangram o real com a lâmina da fantasia, restauram-no com a pomada generosa da imaginação. Romance dos romances, epopeia do delírio lúcido, não apenas se tornou o livro mais lido de todos os tempos depois das Escrituras. É, em si, uma escritura da alma humana, com suas feridas, suas quimeras, seus abismos e sua absurda esperança.


O Cavaleiro da Triste Figura não nasceu de um ventre comum. Foi gestado no calor seco da Mancha, sob o sol inclemente da Andaluzia, filho da melancolia e da biblioteca. Não enlouqueceu por amor, nem por vinho, nem por ambição. Enlouqueceu por excesso de leitura. Um erudito embriagado pelas gestas medievais, pelos feitos miraculosos e cavaleirescos, cuja mente foi tomada por um anseio desmedido de justiça e glória. É um personagem que tropeça no mundo como um anacrônico cavaleiro medieval, ressuscitado em pleno Renascimento. E mesmo nesse descompasso, ou talvez justamente por ele, torna-se grandioso.


Riem dele.


No romance e fora dele.


Mas quem ri de Dom Quixote, em última instância, ri de si mesmo.


Porque rir de sua loucura é zombar do próprio impulso de sonhar. É escarnecer da centelha que ainda nos permite acreditar que há algo de digno neste mundo achatado pela vulgaridade, devastado pelo imediatismo, embotado pela conveniência.


Dom Quixote nos ensina, entre ventos e moinhos, que a moral cavalheiresca não é uma curiosidade arqueológica, mas uma bússola. Um farol para os náufragos éticos do século.


Não se trata de erguer espadas nem vestir armaduras, mas de cultivar a nobreza nos gestos cotidianos. Honrar a palavra empenhada. Defender o oprimido. Amar com altivez. Recusar a ignomínia mesmo quando ela é lucrativa.


Em tempos de cinismo profissionalizado, a altivez quixotesca soa como heresia. O cavaleiro que se curva diante de Dulcineia, mesmo sem jamais tê-la visto, é um protesto contra a banalização do amor e a pornografia do afeto. Ele ama com reverência.


Com propósito.


Com honra.


E o que é o amor sem honra senão um pacto carnal sem alma?


Sancho Pança é o chão. Dom Quixote é o céu.


E nessa convivência entre o barro e as estrelas, Cervantes constrói a mais precisa das metáforas. É preciso caminhar com os pés sujos de terra, mas com os olhos embebidos de estrelas. O homem que só olha para o alto tropeça. O que só olha para o chão apodrece. Quixote tropeça, levanta e segue. Quixote apanha, sangra e insiste. Quixote perde, mas jamais se rende. E talvez não haja lição mais urgente que essa.


Num mundo que idolatra o astuto, o cínico, o bem-posicionado, o cavaleiro andaluz ergue-se como a figura de um outro tempo. Ou quem sabe de um tempo que ainda não chegou. Um tempo em que os ideais serão mais valiosos que os lucros. Em que o espírito pesará mais que o algoritmo. Em que o gesto será mais importante que a estética do gesto. O homem que combate moinhos, mesmo sabendo que são moinhos, é aquele que se recusa a render-se ao desencanto. É aquele que transforma o riso alheio em combustível e a derrota em hino.


Cervantes não escreveu um livro. Escreveu um espelho. E todo espelho honesto, quando olhado com coragem, revela não apenas o que somos, mas o que poderíamos ser. Dom Quixote, esse peregrino errante de Andaluzia, nos convida a calçar nossas sandálias mais gastas, empunhar a lança mais enferrujada, e sair pelo mundo. Não para vencê-lo. Mas para redimi-lo.


No fim, talvez a verdadeira loucura não esteja em ver gigantes onde há apenas moinhos, mas em não enxergar o sublime onde ele verdadeiramente existe. Porque o sublime cavalga, ainda hoje, sob o nome de Dom Quixote.

Diego Franzen é jornalista, escritor, autor de 15 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista, escritor, autor de 15 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana

1 comentário


Decimar Biagini
Decimar Biagini
05 de ago.

Excelente texto, nobre amigo. Daria um lindo poetscript com andaluzia folk gerado no Suno. Vejo muitos Dons vagantes ou destitulados para o devido esvaziamento na caminhada. Luz ao amigo!

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