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O peregrino de Andaluzia

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 5 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

Coluna de Diego Franzen


Há livros que não passam. Permanecem. Não são consumidos, mas ruminados pela alma. São como espadas cravadas no dorso da História: ferem, iluminam, encantam. Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes Saavedra, é uma dessas raras obras que, ao mesmo tempo em que sangram o real com a lâmina da fantasia, restauram-no com a pomada generosa da imaginação. Romance dos romances, epopeia do delírio lúcido, não apenas se tornou o livro mais lido de todos os tempos depois das Escrituras. É, em si, uma escritura da alma humana, com suas feridas, suas quimeras, seus abismos e sua absurda esperança.


O Cavaleiro da Triste Figura não nasceu de um ventre comum. Foi gestado no calor seco da Mancha, sob o sol inclemente da Andaluzia, filho da melancolia e da biblioteca. Não enlouqueceu por amor, nem por vinho, nem por ambição. Enlouqueceu por excesso de leitura. Um erudito embriagado pelas gestas medievais, pelos feitos miraculosos e cavaleirescos, cuja mente foi tomada por um anseio desmedido de justiça e glória. É um personagem que tropeça no mundo como um anacrônico cavaleiro medieval, ressuscitado em pleno Renascimento. E mesmo nesse descompasso, ou talvez justamente por ele, torna-se grandioso.


Riem dele.


No romance e fora dele.


Mas quem ri de Dom Quixote, em última instância, ri de si mesmo.


Porque rir de sua loucura é zombar do próprio impulso de sonhar. É escarnecer da centelha que ainda nos permite acreditar que há algo de digno neste mundo achatado pela vulgaridade, devastado pelo imediatismo, embotado pela conveniência.


Dom Quixote nos ensina, entre ventos e moinhos, que a moral cavalheiresca não é uma curiosidade arqueológica, mas uma bússola. Um farol para os náufragos éticos do século.


Não se trata de erguer espadas nem vestir armaduras, mas de cultivar a nobreza nos gestos cotidianos. Honrar a palavra empenhada. Defender o oprimido. Amar com altivez. Recusar a ignomínia mesmo quando ela é lucrativa.


Em tempos de cinismo profissionalizado, a altivez quixotesca soa como heresia. O cavaleiro que se curva diante de Dulcineia, mesmo sem jamais tê-la visto, é um protesto contra a banalização do amor e a pornografia do afeto. Ele ama com reverência.


Com propósito.


Com honra.


E o que é o amor sem honra senão um pacto carnal sem alma?


Sancho Pança é o chão. Dom Quixote é o céu.


E nessa convivência entre o barro e as estrelas, Cervantes constrói a mais precisa das metáforas. É preciso caminhar com os pés sujos de terra, mas com os olhos embebidos de estrelas. O homem que só olha para o alto tropeça. O que só olha para o chão apodrece. Quixote tropeça, levanta e segue. Quixote apanha, sangra e insiste. Quixote perde, mas jamais se rende. E talvez não haja lição mais urgente que essa.


Num mundo que idolatra o astuto, o cínico, o bem-posicionado, o cavaleiro andaluz ergue-se como a figura de um outro tempo. Ou quem sabe de um tempo que ainda não chegou. Um tempo em que os ideais serão mais valiosos que os lucros. Em que o espírito pesará mais que o algoritmo. Em que o gesto será mais importante que a estética do gesto. O homem que combate moinhos, mesmo sabendo que são moinhos, é aquele que se recusa a render-se ao desencanto. É aquele que transforma o riso alheio em combustível e a derrota em hino.


Cervantes não escreveu um livro. Escreveu um espelho. E todo espelho honesto, quando olhado com coragem, revela não apenas o que somos, mas o que poderíamos ser. Dom Quixote, esse peregrino errante de Andaluzia, nos convida a calçar nossas sandálias mais gastas, empunhar a lança mais enferrujada, e sair pelo mundo. Não para vencê-lo. Mas para redimi-lo.


No fim, talvez a verdadeira loucura não esteja em ver gigantes onde há apenas moinhos, mas em não enxergar o sublime onde ele verdadeiramente existe. Porque o sublime cavalga, ainda hoje, sob o nome de Dom Quixote.

Diego Franzen é jornalista, escritor, autor de 15 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista, escritor, autor de 15 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana

1 comentário


Decimar Biagini
Decimar Biagini
05 de ago. de 2025

Excelente texto, nobre amigo. Daria um lindo poetscript com andaluzia folk gerado no Suno. Vejo muitos Dons vagantes ou destitulados para o devido esvaziamento na caminhada. Luz ao amigo!

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