O Poeta é um ser perigoso!
- temporacomunicacao
- 30 de jul.
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Coluna de Decimar Biagini
Dizem que a poesia é inofensiva. Que rima é brinquedo e métrica é passatempo de aposentado. Ora, quem acredita nisso nunca presenciou o medo de um Tribunal diante de um verso torto de um advogado poeta sagaz que faz metáfora como quem pede pão de queijo no aeroporto rumo ao exílio. E nunca folheou o prontuário de poetas mortos, exilados ou silenciados com mais eficácia que um disparo. A história da censura aos poetas é longa, suja e, pasmem, estatisticamente relevante, embora os ditadores, ou ativistas de toga prefiram números apenas quando inflacionam seus próprios discursos ou apagam os dos outros.
Fico feliz em ser o autor homenageado no 43° concurso internacional da ALPAS-21, a ser lançado na próxima feira do livro em Porto Alegre-RS, academia que tanto estimo em fraterna afinidade e pertencimento.
Fiz até uma singela poesia para esta homenagem a este resiliente conterrâneo, coisa rara, já que pouco poeta é poeta em sua terra. Em setembro passado, estávamos lá presentes para oferecer apoio às crianças de Novo Hamburgo, num projeto de reconstrução pos enchentes, edições da coletânea com poetas de todos os cantos foram para vários países e escolas.
Tive a honra de contar uma poesia infantil aos verdadeiros donos do reino dos céus, causa nobre, abraçada pelo projeto dos meus irmãos de letras José Hilton Rosa, Rozelia e Rejane.
Eis a poesia, que fiz agora, após receber esta grande responsabilidade e despertar grande receio sobre a armadilha do ego:
43° Concurso ALPAS-21
Água cai,
cobre o velho.
Bigode de espera, estranho espelho.
Corcunda afunda sem apelo,
me entrega um céu,
se vai.
Um pacote de valores
me cai sem eu pedir,
partilho com meus amores,
três almas a repartir:
o rico de bons ardores,
o culto a se expandir.
Chuva sobre mim,
parto os bens como um clarim,
a alma diz: é fim.
Rosto em pranto,
mãe desvela:
A dor da avó que se cancela,
perde o nome, a luz, a estrela,
mas é encanto,
é vela.
Diz que a vó já melhora,
mas voltou a esquecer...
precisará nova aurora
pra memória renascer.
Sou neto, mas nessa hora,
sou quem aprende a entender.
Lágrima escorre
num luto que me socorre,
mas nada se morre.
Goteira,
pinga o teto.
A vida pede um projeto.
Eu movo tudo, verso incompleto.
A poesia espera.
Sou neto.
Saudoso da fazenda do avô
criei memórias por todo canto,
gente boa, gente à toa,
gente molhada de pranto.
Mas a chuva já passou
e é tempo de novo encanto.
Recuo o sofá,
cada pingo me ensinará
o que o lar será.
Finda a lição,
digo a eles:
Cuidar é nobre entre os papéis.
Querem escrever,
escrevam com empolgação
Comecem e passem a crer
A imortalidade é dimensão
Que cada um vigie seus painéis
Crie bem estar a quem ler,
com o coração,
sem véus.
Só por hoje,
gratidao!
Bom, seguiremos com nossa crônica, ao que tudo conduz para o bem daqueles que acreditam que Deus está no centro de todo dom utilizado com razão e fé.
Comecemos com um dado: segundo o PEN International, mais de 1.000 escritores foram perseguidos ou mortos entre 2010 e 2020 em regimes autoritários, e quase 15% eram poetas. Sim, POETAS! Essa categoria que, segundo alguns ministros da cultura (da ignorância), serve apenas para embelezar folhetos turísticos ou colocar citações em postes de Instagram. Mas não se enganem: há algo profundamente insubordinado num haicai que expõe a nudez de um governante vestido em farda e vaidade.
Na China, Ai Qing, pai do hoje internacional Ai Weiwei, foi exilado e forçado a limpar latrinas por escrever versos "ideologicamente desviantes". Na União Soviética, Anna Akhmátova teve seus poemas banidos e seu filho preso, enquanto Stalin, que lia poesia, veja só!, dizia que ela era “perigosa demais”. E no Brasil? Pergunte a Vladimir Herzog, se puder. Ou a Solano Trindade, se der. Em tempos de chumbo, o poeta é metal inflamável.
Aliás, cá entre nós: nunca vi um tirano de verdade que escrevesse poesia. No máximo, panfleto, decreto ou fake news em prosa capenga. Porque poesia exige escuta, dúvida e desespero, três coisas que um déspota evita como o diabo foge de Drummond.
Há algo quase patético na forma como regimes caçam poetas. Um general enfurecido por um verso rimado é um espetáculo tragicômico. Imagine o gabinete da censura: “Senhor, o poeta escreveu ‘o silêncio do Estado é o grito do cárcere’. Devemos prendê-lo?” Claro! Antes que ele comece a declamar na praça e infecte os passantes com lucidez.
O poeta não tem tanques. Tem estrofes. Não comanda pelotões. Mas convoca consciências. E isso, meu caro, é insurreição.
E então censuram. Primeiro cortam verba, depois cortam falas, depois cortam cabeças. O poeta começa proibido no edital, numa entrevista, numa casa de falsa caridade, depois na escola, depois no Google. Quando se vê, virou nome de rua num bairro afastado, como prêmio póstumo pelo incômodo causado.
Mas eis a ironia: não há gesto mais poético que o medo que um tirano sente de um poema. Porque ali, naquela ode camuflada, está o que o poder mais teme, a revelação de que ele é ridículo. E não há bomba mais eficaz contra o totalitarismo do que o riso que brota ao ver um poderoso desmascarado num soneto malcriado.
Sim, há risco em ser poeta. Mas há risco maior ainda em viver sem poesia. Uma sociedade sem versos é como uma república sem alma: burocrática, feia e submissa.
Então, que venham os censores com suas tesouras rombudas! Enquanto houver um papel de pão, um sarau clandestino ou uma criança rimando no recreio, a poesia estará viva, e perigosamente armada.
Com palavras, é claro.















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