O que o apagão do último domingo revela sobre o nosso “eu” obscuro?
- temporacomunicacao
- 26 de mar.
- 3 min de leitura
COLUNA DA PSICÓLOGA FRANCIELE SASSI

O que de nós emerge quando não há olhos sobre nós? Quando a vigilância social se dissolve, quando não há julgamento imediato, quando ninguém parece estar realmente vendo? Existe um “eu” que sustenta a convivência: regulado, contido, moldado pelas expectativas, e um outro que escapa pelas frestas do anonimato. Esse segundo eu não é necessariamente mais verdadeiro, mas é, sem dúvida, menos filtrado. É ele que aparece nas mensagens não enviadas, nos pensamentos que não ousamos dizer em voz alta, nos impulsos que seguramos durante o dia… e, curiosamente, também na forma como nos comportamos atrás de uma tela.
O ambiente virtual oferece uma espécie de invisibilidade simbólica. Por trás de um celular ou computador, muitas pessoas se sentem mais livres para dizer, opinar, atacar, amar, expor, como se a ausência do olhar direto suspendesse as consequências emocionais do encontro. A distância protege, mas também revela. E o que ela revela nem sempre é bonito, mas é profundamente humano: nossas contradições, nossos excessos, nossa necessidade de expressão.
No último domingo, durante o apagão que atingiu diversos bairros de Bento Gonçalves, algo curioso aconteceu. Sem luz, sem telas, sem a mediação habitual das tecnologias, as pessoas voltaram, ainda que por instantes, a uma forma mais primitiva e, ao mesmo tempo, mais espontânea de existir em coletivo. Dos prédios, vinham gritos, risadas, tentativas de contato. Feixes de laser cruzavam o escuro, lanternas de celular piscavam como sinais improvisados, quase como um código não combinado entre desconhecidos. Ali, paradoxalmente, ninguém via ninguém. E talvez justamente por isso, todos puderam se mostrar um pouco mais.
Há algo profundamente revelador nesse movimento. Quando o rosto do outro não está claramente visível, quando não há reconhecimento direto, o medo do julgamento diminui (e com ele), as amarras sociais se afrouxam. Surge então uma espontaneidade que, no cotidiano iluminado, muitas vezes é inibida. Gritar para o prédio ao lado, responder a um desconhecido no escuro, brincar com a situação… são expressões de um humano que deseja contato, mas que frequentemente se contém.
O apagão, nesse sentido, não foi apenas a ausência de luz elétrica, foi também uma suspensão momentânea das regras implícitas de comportamento. E nesse intervalo, o que apareceu não foi o caos, mas a criatividade. Não foi o isolamento, mas a busca por conexão. Não foi o silêncio, mas uma linguagem inventada no improviso. Talvez isso diga muito sobre quem somos.
Porque quando não estamos sendo vistos (ou quando acreditamos não estar) algo em nós se autoriza. Às vezes, para o pior. Mas, muitas vezes, também para o encontro, para o riso, para o jogo. Existe uma potência criativa no anonimato que pode tanto ferir quanto aproximar. E a diferença, talvez, esteja menos na ausência do olhar do outro e mais na forma como nos responsabilizamos pelo que fazemos com essa liberdade.
No escuro daquele domingo, sem rostos definidos, sem identidades claras, o que se ouviu foi um coletivo tentando, à sua maneira, não se sentir só. E talvez, no fim, seja isso que permanece: mesmo quando ninguém está vendo, seguimos buscando ser vistos, ainda que apenas pela presença, pelo som, pela luz que conseguimos emitir no escuro.












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