O TRIUNFO DO IDIOTA
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COLUNA DE DIEGO FRANZEN

Deve ser muito bom ser idiota. Sabe, amigo leitor, uma vez fiz um teste de QI. O resultado me surpreendeu, pois apareceu que meu Quofisciente de Inteligência era de 130, sendo que a média era de 90 a 110. Abaixo de 90, burro e idiota. Não fui considerado gênio pelo teste, apenas um pouco acima da média. Um teste besta que serviu pra inflar meu ego apenas. Nâo me deu grana, não me deu conforto, não deu sentido para meus dias. Muito menos alívio emocional. Não serviu de nada e nem sei, até hoje, se é uma coisa oficial, embora tenha sido feito por um profissional da saúde mental.
Sempre tive boa memória quando o assunto me dá aquela "pauduressência". Presto a atenção em detalhes, consigo desenvolver rápido. Mas e isso adianta o quê?
Repito, deve ser muito bom ser idiota. A vida é generosa com eles. Generosa a ponto de lhes conceder uma felicidade que eles nunca hão de dar valor. Tesouros que eles tentarão jogar na lama. Chances que muitos deles nunca foram dignos. Mas eles venceram. E eu, que me sei contaminado pelo vírus do pensamento, confesso sem pudor algum que queria ser um idiota. Anseio por isso. Em certos dias eu consigo. E são, não por acaso, os meus melhores dias.
A vida reserva aos estultos uma espécie de estado de graça permanente. O idiota é um ser blindado. Enquanto o homem de espírito se estilhaça contra as arestas do mundo, o imbecil flutua, impulsionado por uma leveza que só a ausência total de massa encefálica pode proporcionar.
Eu os observo nas redes sociais, onde expõe suas jornadas épicas e vazias em festas, nos bares, nos encontros casuais, e sinto uma inveja que já não se disfarça de elegância. É uma inveja crua, quase humilhante.
Invejo a sua paz bovina, essa serenidade de pasto verde onde nenhuma dúvida se atreve a pastar.
O idiota habita o paraíso da repetição, um Éden de plástico onde tudo já foi dito e, justamente por isso, tudo é confortável. Ele não precisa do novo, do sublime ou do transcendente. Isso dá trabalho, e o trabalho é uma forma de tragédia. Ele se satisfaz com o conforto do clichê, que convenhamos sempre há de ser uma almofada fofa onde a inteligência, se ousasse deitar, morreria sufocada.
Dê-lhe uma bebida qualquer, uma música ruim e a companhia de outros iguais, e ele terá encontrado a plenitude que os filósofos buscaram em bibliotecas poeirentas.
Ele não quer aprender. Para quê? O aprendizado é uma chaga, uma ferida, uma hemorragia, uma confissão pública de insuficiência. O idiota já nasce completo, uma obra acabada em sua própria e magnífica vacuidade.
Ele fala errado com a autoridade. Assassina a sintaxe, despreza a concordância e, ainda assim, é ouvido com uma atenção que o pensamento rigoroso raramente conquista. Há uma sedução magnética na ignorância, uma espécie de carisma bruto que dispensa argumentos.
Enquanto o inteligente hesita, torturado pelas dúvidas metódicas, ou mesmo pelo excesso de empatia, de se colocar no lugar dos outros e querer dar conforto e ternura, o imbecil avança com a certeza dos brutos, que é sempre a mais convincente porque não admite contestação. E é egoísta, o que é a melhor parte. Porque o imbecil só pensa nele. E, talvezm por isso, a vida lhe é tão confortável. Porque ele não tem dramas existenciais. Isso é um luxo reservado aos que pensam demais.
Sem pudor, ele faz quem o cerca se sentir mal. E, se o mundo ameaça ruir, ele aumenta o volume do rádio.
O idiota não sofre de insônia. Ele apaga com a facilidade de quem não tem um único pensamento inconveniente para lhe fazer companhia no travesseiro.
No lado oposto dessa silenciosa guerra, estamos nós, os operários do pensamento, os garimpeiros do sentido, condenados a peneirar o nada em busca de alguma pepita de significado.
O inteligente vive em uma busca incessante por um milagre cotidiano que teima em não se manifestar, como um santo que perdeu a fé mas continua rezando por hábito. Ele olha para a vida e exige dela uma coerência, uma beleza, uma centelha de divindade que justifique o fardo de estar vivo.
Uma ousadia quase cômica.
Ele busca o seu lugar no universo, procura uma estrela guia em um céu nublado, apenas para descobrir, com um atraso doloroso, que o universo é um silêncio vasto e elegantemente indiferente às nossas angústias.
É uma fadiga de séculos, que não se resolve com descanso. O homem culto carrega nos ombros o peso de todas as perguntas sem resposta, e ainda tem a pretensão de organizá-las em frases bonitas. Se emociona com o que ninguém vê, sofre por aquilo que os outros nem suspeitam e gasta a sua alma tentando traduzir o indizível, como se o indizível estivesse interessado em ser traduzido.
Espera o extraordinário, o encontro das almas, a epifania na esquina, a revelação súbita que dará sentido a tudo, mas o que recebe é o eco da sua própria solidão.
Por isso, eu confesso, eu invejo os idiotas. Invejo essa capacidade de ser feliz com o nada, de rir da piada grosseira e de dormir sem o peso da consciência ou da erudição, que são apenas dois fardos que a humanidade insiste em tratar como virtudes.
O imbecil é o verdadeiro vitorioso da evolução humana, o ápice de uma espécie que cansou de pensar e resolveu, enfim, descansar.
Ele não precisa de propósito. Ele é o seu próprio fim, o que, convenhamos, é uma solução elegante. Enquanto nós buscamos a luz com a obstinação dos condenados, ele se diverte no escuro, feliz por não saber que as lâmpadas estão queimadas. O idiota é o único que realmente se diverte, enquanto nós, os esclarecidos, seguimos morrendo de tédio e angústia nos bastidores da nossa própria inteligência.












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