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O Sofrimento Silencioso do Luto em Relações Conflituosas

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 5 de ago.
  • 2 min de leitura

Coluna da Psicóloga Franciele Sassi


Quando falamos em luto, é comum imaginar alguém tomado pela saudade, pela falta, pela ausência de quem amava. A sociedade, de maneira geral, associa o luto exclusivamente à dor pela perda de alguém querido, amado, com quem se tinha uma relação harmônica. No entanto, essa é uma visão limitada e injusta sobre o processo de luto.

A pergunta é: se eu não tiver construído uma considerada boa relação com a pessoa que partiu, logo, eu não sou digno de viver o processo? A resposta é: o luto não é uma consequência do amor unicamente, mas sim da representação da relação. Não podemos atribuir luto à qualidade do vínculo, mas à sua construção. Portanto, relações conflituosas também passam pelo luto quando há perda.

Nem todas as relações, afinal, são fáceis. Existem vínculos marcados por mágoas, afastamentos, desentendimentos ou até rompimentos. E, quando a morte chega, não leva embora apenas a pessoa, mas também rouba as possibilidades de resolução de pendências emocionais, conversas que não foram feitas, perdões que não aconteceram, reparações que não puderam ser realizadas. Isso gera um tipo de sofrimento à pessoa enlutada que, muitas vezes, é invisível e pouco reconhecido. Relações conflitantes também geram luto.

Quem perde alguém com quem tinha uma relação difícil pode se deparar com uma mistura intensa e confusa de sentimentos. Não há só tristeza, mas também raiva, culpa, alívio, arrependimento, frustração. E, em alguns casos, até vergonha por não estar sentindo "o que se acha que deveria sentir". Esse tipo de luto acaba sendo desautorizado socialmente e é atravessado por diversos julgamentos – o que pode complicar o processo a quem está passando por ele. Esse olhar invalida a dor e torna o luto ainda mais solitário.

Que tomemos consciência de que o luto não surge apenas da saudade de quem se ama. Ele nasce da ruptura de um vínculo, e todo vínculo, mesmo conflituoso, carrega significados, histórias, expectativas e, muitas vezes, desejos não realizados. A morte arranca a oportunidade de ressignificação direta da relação, e isso pode ser profundamente doloroso para quem fica.

O sofrimento por aquilo que não foi vivido, pelas conversas que não aconteceram, pelos pedidos de desculpa que não foram feitos, também é luto. E ele pode ser tão ou mais desafiador do que aquele que surge em relações amorosas e acolhedoras, justamente porque não encontra espaço social para ser validado – e o que não tem lugar, não tem endereço, acaba ocupando todos os espaços da vida, demandando demasiada energia.

É fundamental que a compreensão sobre o luto passe por uma educação e ampliação de crenças e valores. Validar esse sofrimento é dar um passo importante para que quem vive essa experiência possa, aos poucos, elaborar sua dor, ressignificar sua história e construir um caminho possível de cuidado e acolhimento — mesmo na ausência de encerramentos ideais e entendendo que as relações são vias de mão dupla, e que nem tudo é possível do jeito que se gostaria, mas que nem tudo também tem a ver unicamente com a gente.

Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre, colunista do Pauta Serrana.
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre, colunista do Pauta Serrana.

1 comentário


Decimar Biagini
Decimar Biagini
05 de ago.

Todo luto deve ser respeitado, no tempo de cada um. A picada de mosquito para um pode ser fatalnpara outro. Parabenizo a oportuna coluna, agosto nos traz ventos que inspiram cuidados e enfrentamentos nos sentimentos empoeirados. Boa semana!

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