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O vazio na cadeira ao lado: quando a ausência dos pais pesa mais que a mochila do aluno

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 8 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Coluna de Maia Boaro


Maia Boaro é psicopedagoga, psicoterapeuta e psicanalista, com especialização em Término , Dependência e Narcisismo. Especialista em Neuropsicologia e problemas de aprendizagem; Educação especial infantil e TEA; Terapia cognitiva comportamental; Especialização em terapia em aba; Terapia analítica do comportamento infantil; Especialização em alfabetização e letramento.
Maia Boaro é psicopedagoga, psicoterapeuta e psicanalista, com especialização em Término , Dependência e Narcisismo. Especialista em Neuropsicologia e problemas de aprendizagem; Educação especial infantil e TEA; Terapia cognitiva comportamental; Especialização em terapia em aba; Terapia analítica do comportamento infantil; Especialização em alfabetização e letramento.

Há silêncios que não cabem nos corredores da escola. Alguns chegam antes das crianças, sentam-se ao lado delas e permanecem o dia inteiro, preenchendo o espaço que deveria ser ocupado por presença, cuidado e vínculo. É o silêncio da ausência dos pais — uma ausência que não é apenas física, mas emocional, afetiva e, muitas vezes, estrutural.

Para muitos alunos, a mochila lotada de cadernos, livros e bilhetes não é o que pesa. O que pesa é aquilo que falta: o olhar que não acompanha, a palavra que não orienta, o abraço que não confirma pertencimento.

A escola como último porto — mas não suficiente

Professores percebem isso antes de qualquer pessoa.

Percebem quando a criança chega com olhos cansados demais para a idade.

Percebem quando a agressividade não é falta de limites, mas de colo.

Percebem quando o desinteresse não é preguiça, mas um pedido silencioso de atenção.

Em muitos casos, a escola se torna o último porto, o único espaço em que essa criança encontra previsibilidade, escuta e um mínimo de cuidado emocional. Mas também é verdade: a escola não dá conta de preencher ausências que pertencem à família.

A educação precisa de parceria. A infância, mais ainda.

A ausência que se camufla

A ausência dos pais não se apresenta apenas nos boletins não assinados ou nas reuniões vazias. Ela aparece em coisas pequenas, quase invisíveis:

Na lancheira que chegou vazia de novo.

No caderno que ninguém nunca folheou.

Na ansiedade que a criança demonstra toda vez que a porta abre, esperando alguém que não vem.

Na insegurança de quem aprendeu cedo demais a se virar.

E cada professor, diante disso, faz o que pode. Às vezes o que não pode.

Porque educar uma criança que carrega a solidão nos olhos exige mais do que planejamento: exige alma.

Quando a ausência vira comportamento

A psicanálise nos lembra que toda falta se manifesta. E dentro da sala de aula, essa manifestação pode assumir diversas formas:

O aluno que não para quieto — não porque quer atenção da professora, mas porque não recebe nenhuma em casa.

O aluno que explode — porque não aprendeu outra maneira de lidar com frustração.

O aluno que se isola — porque o afeto que faltou criou um mundo interno fechado demais.

O aluno que “desiste” — não da matéria, mas de si.

Por trás da indisciplina, muitas vezes existe abandono.

Por trás do desinteresse, uma vontade profunda de ser visto.

E nós? O que fazemos com essa realidade?

É preciso falar sobre isso com coragem.

É preciso tirar o peso da culpa dos professores, que não conseguem substituir a estrutura emocional que deveria vir de casa.

É preciso tirar o peso da idealização das famílias, reconhecendo que há pais cansados, sobrecarregados, ausentes não por maldade, mas por sobrevivência — e há também os que simplesmente decidiram não participar.

O diálogo não pode ser sobre julgamento. Tem de ser sobre responsabilidade.

A criança no centro — sempre

As políticas públicas precisam alcançar as famílias.

As escolas precisam de apoio psicológico contínuo.

Os professores precisam parar de “dar conta de tudo”.

E as crianças — essas precisam voltar ao centro do debate, onde sempre deveriam estar.

Porque uma cadeira vazia ao lado de um aluno nunca é apenas uma cadeira.

É um símbolo de algo maior:

do vínculo que falta, do afeto que não chega, do mundo que a criança tenta decifrar sozinha.

E quando isso acontece, o peso da ausência se torna maior do que qualquer mochila.

E maior do que qualquer criança deveria carregar.

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