O verdadeiro Zorro
- temporacomunicacao
- 11 de ago.
- 4 min de leitura
Coluna de Diego Franzen
Existem personagens cuja gênese transcende a mera invenção literária, subsistindo como arquétipos perenes na vasta simbologia cultural da humanidade. Zorro não se circunscreve ao locus da ficção; sua essência perambula entre os meandros da história e da lenda, amalgamando realidade e mito numa simbiose indissociável. Consubstanciado por Johnston McCulley em 1919, sob a égide de Don Diego de la Vega, o alter ego aristocrático e enigmático, o justiceiro mascarado emerge como o epítome do cavaleiro errante, à la fois espectro e herói, que manipula a espada e o simbolismo com igual perícia.
Porém, a edificação do mito não decorreu exclusivamente da caneta de McCulley. Sua raiz mais profunda encontra-se em figuras históricas que personificaram a astúcia, o desafio e a rebeldia. O verdadeiro Zorro, William Lamport, foi um irlandês incursor dos séculos XVII e XVIII, detentor de múltiplas faculdades e que falava 14 impressionantes idiomas.
Percorreu batalhas e jurisdições, imerso em estudos filosóficos na prestigiada Santiago de Compostela e subsequente teologia no monastério de El Escorial.
Sua trajetória singular inclui um panfleto crítico ao domínio inglês sobre a Irlanda, ato subversivo que culminou em sua prisão e desaparecimento enigmático, posterior associação com corsários e uma reentrada na vida acadêmica espanhola sob o nome de Guillén Lombardo.

Dotado de carisma e habilidade com a espada, bem como de uma verve apaixonada, Lamport vinculou-se à corte de Gaspar de Guzmán y Pimentel, o conde-duque de Olivares, preceptor e braço direito do rei Felipe IV.
Sua ligação e caso com Ana de Leiva, dama da aristocracia espanhola, redundou no exílio para a então Nova Espanha, atual México. Ali, iniciou-se em rituais indígenas de feitiçaria, agregando um aura de misticismo a seu perfil multifacetado, e enfrentou a Inquisição, instituição temida e inexorável, da qual escapou mediante uma fuga tão prodigiosa que resultou em rumores de que ele tinha um pacto satânico.
Assim renasceu El Zorro, a raposa astuciosa, fantasmagórico cavaleiro noturno que, desafiando o jugo da Igreja e do Estado, distribuiu panfletos heréticos e praticou uma justiça sui generis, entre zombarias e golpes de espada. A consequência destas intrépidas aventuras foi a prisão por acusações de heresia e fornicação.
Esta última, consubstanciada na infame captura enquanto estava ao lado da esposa do vice-rei don López Díaz de Armendáriz, redundou em condenação à fogueira. No entanto, num ato derradeiro de desafio e controle do próprio destino, Lamport suicidou-se enforcando-se com as cordas que o aprisionavam, subvertendo pela última vez os símbolos do poder opressor.
Outra figura cujos ecos repercutiram na gênese de Zorro foi Joaquín Murrieta, mexicano nascido em Sonora em 1829, que rumou para a Califórnia na febre do ouro. Movido pela tragédia do estupro de sua esposa e pela injustiça institucionalizada, Murrieta enveredou pelo caminho da vingança, incorporando-se a bandos que perpetravam ataques contra autoridades, mas simultaneamente amparavam os menos favorecidos, configurando-se ora como bandido, ora como patriota insurgente contra a dominação anglo-americana. Sua decapitação apenas acentuou sua aura messiânica, símbolo da resistência latino-americana ante a hegemonia econômica e cultural dos colonizadores.

No cinema, esses universos confluiram em A Máscara do Zorro (1998), em que Anthony Hopkins encarna o Don Diego original, mentor do jovem Alejandro Murrieta, vivificado por Antonio Banderas, que assume a identidade do lendário justiceiro para vingar a morte do irmão Joaquin. A narrativa permeia vingança e redenção, com a sombra do vilanesco capitão Harrison Love pairando como antagonista sombrio. Este entrelaçamento de figuras reais e fictícias reitera a universalidade e a complexidade do mito.
Precedendo as grandiosas telas, o Zorro que marcou gerações foi o de Guy Williams, na série televisiva de 1957, produção Disney que imprimiu no imaginário coletivo a quintessência do herói: elegância, sagacidade e destreza em coreografias que mais se assemelhavam a balés armados do que a combates cruéis. Seu “Z” cortado com a lâmina era assinatura artística e reivindicação de justiça para além da simples vingança.
Zorro ensina que a heroísmo não depende de superpoderes, mas da coragem de enfrentar a tirania com engenho, astúcia e um senso refinado de justiça. Ele é, assim, precursor espiritual do Batman, compartilhando a dualidade da identidade, o simbolismo e a luta contra a opressão na sombra da noite. Sua trajetória revela que a verdadeira nobreza reside no caráter, e que a máscara, longe de ocultar, revela a essência daquele que a porta.

Por razões pessoais e simbólicas, carrego o nome Diego, homenagem direta ao Zorro, figura que transcende a mitologia para se converter em farol de liberdade e dignidade. Recomendo sem hesitação a série de Guy Williams, cuja versão permanece insuperável em verve e encanto, e também A Máscara do Zorro, que revisita com maestria o legado multifacetado deste cavaleiro da raposa. Enquanto persistir a injustiça, haverá sempre uma sombra veloz, um “Z” luminoso riscados nas paredes da opressão, lembrando-nos que o mito nunca perece.















Comentários