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Os dias em que nos sentimos menos gente

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 4 de nov.
  • 2 min de leitura

Coluna de Diego Franzen


Há dias em que a alma parece vestida de chumbo. Dias em que o coração pulsa como uma máquina cansada e o mundo inteiro soa em surdina. São dias de lassidão, de abúlia, de taedium vitae. Dias em que a poesia se impõe como maldição, porque o poeta, coitado, sente com mais intensidade justamente quando tudo dói.


Nessas horas, o verbo pesa. O ar pesa. E até os pensamentos ganham densidade de pedra. É quando a inspiração, essa pérfida divindade, desce sobre nós com mais força, zombando da nossa fraqueza, convertendo a dor em letras, o desalento em beleza. É a sina dos que escrevem: quanto mais a alma sangra, mais o papel floresce.


Há também as dores que não cabem em metáfora. A doença de quem amamos, a impotência diante da fragilidade humana, o olhar perdido de um ente querido no leito, o coração que suplica por milagre e recebe silêncio.


E há os sonhos que morrem sem alarde, os projetos que se arrastam como náufragos em marasmo, os ideais que precisamos renunciar em nome da realidade.


Nesses dias de desalento ontológico, o espelho nos devolve um rosto envelhecido, a chama interior vacila e tudo parece um simulacro de vida. Mas é aí que aprendo, de novo, a lição que as artes marciais me ensinaram: a resiliência.


Nas artes marciais, quando jovem, enfrentava adversários maiores, mais fortes, mais vigorosos. E vencia com phronesis, com astúcia e inteligência. Hoje, quando o tempo me impõe rivais mais resistentes e incansáveis, o cansaço, a dor, a dúvida, venço com experientia, com a serenidade que só a batalha contínua concede.


Um guerreiro não nasce pronto; é forjado no calor dos embates que o destino oferece.


Um homem de honra e valor não se dobra ao ouro, nem se corrompe com o aplauso fácil.


Seus joelhos só se prostam diante de Deus.


Neste mês, completo vinte e quatro anos de saudades do meu pai. Sinto a força dele me rondando nos dias escuros, a inteligência, a presença, a proteção silenciosa. Seus amigos o chamavam de Mestre, e não era força de expressão.


Ele me ensinou que o amor e o perdão são a espada e o escudo de um verdadeiro cavaleiro. Que não devemos nos atormentar com o que os outros fazem ou sentem a nosso respeito, o que eles alimentam pertence a eles. O que nós alimentamos, isso sim, é o que nos define.


E assim sigo, ferido, mas ereto; cansado, mas fiel à honra. Porque há dias em que nos sentimos menos gente, mas é justamente nesses dias que mais nos tornamos humanos.


Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e editor do Portal Pauta Serrana

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