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Perder o único ser insubstituível

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 17 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Coluna de Diego Franzen



A gente passa a vida inteira achando que já perdeu muita coisa. Perde tempo, perde ônibus, perde amores, perde amigos pelo caminho. Mas nada prepara para o dia em que a vida resolve tirar da gente a única perda que não tem reposição. Minha mãe morreu. Na última segunda-feira, dia 15 de dezembro de 2025, perdi Dona Iracema Pereira Franzen. A Cema Cabeleireira, como era conhecida. E esse é o motivo pelo qual lágrimas escorrem em minha face enquanto escrevo esse texto, como um ode e como reflexão sobre a importância da mãe em nossas vidas.


Minha mãe não está mais aqui. E o mundo, que até então seguia barulhento, apressado e cheio de opiniões, ficou estranhamente silencioso.


Não é um silêncio bonito. É um silêncio definitivo.


Porque tudo pode ser reinventado, remendado ou substituído. Mãe, não.


Sempre me orgulhei de dizer que meu pai, seu Wanderlan, foi o homem mais inteligente que conheci. Não apenas pelo intelecto, mas pela lucidez, pela ética e pela forma como lia o mundo. É natural, portanto, que um homem assim tenha escolhido para caminhar ao seu lado uma mulher à altura de sua grandiosidade.


E escolheu.


Só que minha mãe, apesar de baixinha, brava e de amor largo, era ainda maior do que ele. Maior no gesto, no cuidado e na capacidade de amar sem fazer alarde.


Ela era dessas mulheres que resolvem a vida enquanto o mundo ainda está pensando no problema.


Participava da Seicho No Ie, acreditava numa espiritualidade serena e prática, dessas que não prometem milagres, mas sustentam a travessia. Foi a mulher mais guerreira que eu conheci. Na última vez em que falei com ela pessoalmente, cuidando dela no hospital, ela me contou que havia sonhado com o mestre Masaharu Taniguchi e com o meu pai. Diziam que eles lhe falavam com calma, com aquela certeza mansa de quem conhece o destino, garantindo que tudo ia ficar bem.


E eu gosto de acreditar que, em algum ponto desse mistério que não sabemos explicar, meu pai, que nos deixou em 2001, veio buscá-la. Como quem volta apenas para dizer que o caminho é seguro.


Mas minha mãe ensinou muito mais do que a aceitar a finitude.


Ela me ensinou empatia. Ensinou que amar alguém é cuidar, independentemente da hora, do lugar ou da circunstância. Ensinou que devemos fazer todo o possível, sempre, para tornar a vida das pessoas melhor do que a encontramos.


Mesmo quando estamos cansados. Principalmente quando estamos cansados.


Por influência dela e do meu pai, aprendi cedo a amar os livros, as palavras e o silêncio que antecede uma frase bem pensada.


Desde a adolescência, escrever virou minha terapia. Parar. Anotar. Escrever o que sinto e o que sonho. Organizar o caos em linhas tortas, dar nome ao que dói e forma ao que ainda não sei explicar. E assim sigo fazendo. Todos os dias.


Dizem que herdei o jeito sisudo do meu pai. Concordo. Mas o sarcasmo, esse veio da mãe. Um sarcasmo fino, certeiro, acompanhado de imitações impagáveis, feitas no meio da cozinha, da sala ou de qualquer conversa séria demais para permanecer séria.


Faço isso até hoje, vez ou outra. Agora entendo o porquê. Era o modo dela lembrar que a vida, apesar de dura, não precisa ser solene o tempo todo.


A mãe é o primeiro abrigo e o último refúgio. É quem nos ensina a linguagem do afeto antes mesmo de sabermos falar. É quem nos dá chão quando o mundo treme e quem nos devolve humanidade quando a aspereza ameaça vencer. Perder uma mãe é perder o ponto fixo do universo. Mas é também descobrir que muito do que somos continua vivendo, silenciosamente, por causa dela.


Tenho um casal de irmãos extraordinários. Pessoas inteiras, generosas, moldadas por esse mesmo amor exigente e luminoso.


O legado da nossa mãe não termina aqui. Segue em nós, nos gestos que repetimos sem perceber, nas escolhas que fazemos quando ninguém está olhando, na forma como cuidamos de quem amamos.


Quero levar o legado desse casal incrível, Wanderlan e Cema, em mim, na minha vida e nas minhas atitudes.


Meu maior sonho é que eles se orgulhem de mim, assim como eu me orgulho deles.


E quero, sobretudo, que meus três filhos se orgulhem do legado familiar que carregam, de uma história feita de caráter, afeto e responsabilidade.


Minha mãe se foi.


Mas tudo o que ela plantou permanece.


E permanecerá.


Pra sempre.


Diego Franzen é jornalista, escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comnunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista, escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comnunicação e Editor do Portal Pauta Serrana


1 comentário


Decimar Biagini
Decimar Biagini
17 de dez. de 2025

Das coisas mais lindas que li, paradoxalmente uma despedida triste, obrigado, obrigado, obrigado. Masaharu Taniguchi fez linda ponte violeta ao casal, flores douradas caiam num celeste dimensional de amor e serenidade.

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