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POR QUE EU ESCREVO?

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    temporacomunicacao
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

COLUNA DE DIEGO FRANZEN


Diego Franzen é jornalista, escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista, escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e editor do Portal Pauta Serrana

Escrevo porque o silêncio nunca me foi pátria. Desde sempre. Há em mim um excesso antigo, uma superabundância de mundo que não encontra repouso no gesto ordinário da fala. A palavra dita se dissipa, evapora como incenso vulgar. A escrita, não. Ela permanece. Fixa-se. É ferida aberta que não busca cicatriz, apenas sentido.


Certafeita um conhecido, em um evento, me perguntou qual IA uso pra escrever. Eu não uso. Tem muito pseudocolunista que não existe sem IA, que escreve "concerteza" e ainda berra por textos que jamais seriam capazes de produzir. Mas eu não sou um desses. Eu realmente escrevo. Dizem que sou meio TDAH. E acho bem provável, embora não diagnosticado oficialmente. E talvez escrever seja um dos meus hiperfocos.


Na adolescência, quando tudo ainda era desmedura e insolência, quisemos fundar uma banda de rock. O nome era grotesco, escandalosamente juvenil, quase uma blasfêmia sonora. La Poronga. Havia ali mais afronta do que música. Muito riso, zero método. Em dois ou três dias escrevi catorze canções. A maioria jamais foi tocada. Duas, talvez três, ganharam corpo e voz, e o resultado foi um desastre constrangedor. Um horror. Não sou músico. Nunca fui. Sou um amante da música, um devoto silencioso ajoelhado diante da genialidade alheia.


Depois vieram as poesias. Sombrias, densas, saturadas de niilismo adolescente. Bebia em Augusto dos Anjos como quem bebe veneno sabendo que dói, mas revela. Flertava com Schopenhauer, odiava a humanidade com a ferocidade típica de quem ainda acredita demais nela.


Às vezes ainda odeio.


Convivo com a depressão desde sempre, como se convive com um parente incômodo que conhece cada cômodo da casa. Carrego as dores dos sonhos não realizados, dos amores não correspondidos, da frustração contínua de não ser quem imaginei ser quando o futuro ainda parecia um lugar confortável.


No apagar das luzes de todos os anos, brinco dizendo que, se ganhar na Mega da Virada, me tornarei o Batman. Sempre que digo isso meus amigos riem. Eu também. Mas há brincadeiras que são apenas confissões em trajes de festa.


Sempre quis ser especial. Jamais suportei a ideia de ser digno de pena. Sou inteligente, sim, e digo isso sem falsa modéstia. A escrita sempre foi minha terapia, desde os treze ou quatorze anos. Quando surgiram as comunidades do Orkut, aquilo foi um paraíso textual. Um território livre onde se escrevia sem pedir absolvição. Depois veio o Facebook, e a mesma pulsão encontrou novo púlpito.


Em dois mil, entrei na redação do Diário Serrano e o jornalismo invadiu minha vida como uma iniciação irreversível. Eu podia escrever. Eu podia dialogar com o mundo sem encará-lo. Eu podia vencer a timidez enfrentando a realidade com frases afiadas.


Mas sou quixotesco por essência. Um legítimo cavaleiro da triste figura, investindo com dignidade patética contra moinhos que insistem em se passar por gigantes.


Escrevi dezessete livros. No percurso, encontrei filosofias que me moldaram como o tempo molda a pedra. As ordens iniciáticas. A maçonaria. Cheguei ao grau 33, o grau máximo, antes dos quarenta e cinco anos. Fui Mestre Instalado. Sou conhecido no meio. Muito conhecido. Não por alarde, mas por trajetória. Há caminhos que se percorrem em silêncio e que, ainda assim, deixam marcas profundas.


Nas artes marciais, sempre primei pela técnica, pela obsessão da perfeição, pela estratégia, pela inteligência aplicada ao gesto. Nunca fui o mais forte, nem o mais feroz. Fui o mais atento. Talvez por isso os troféus. Talvez por isso as medalhas de campeão. Ainda adolescente alcancei a faixa preta, e aquilo tinha um significado quase litúrgico. Fui provocado inúmeras vezes. Chamado de covarde por não aceitar a briga. Atravessei essa fase sem trocar um soco sequer.


Voltava para casa e escrevia. Porque escrever é criar. E criar sempre foi minha forma mais sofisticada de combate.


Assim nasceram os livros. E se me perguntarem onde estou mais exposto, onde mais me desnudei sem confessar, responderei sem hesitar que é nos romances. Tempora Hostem, um romance policial onde a ordem aparente colide com o caos moral e o tempo se transforma em inimigo. A Pedra Oculta, romance místico e histórico, impregnado de símbolos, iniciação e memória, onde o passado insiste em não dormir. Agentes do Binário, uma distopia em que a lógica fria, o controle e a desumanização tecnológica denunciam um medo muito íntimo de um futuro sem alma. Quem me conhece sabe. Estou em todos eles. Estou lá, diluído nas ideias, escondido nos conflitos, infiltrado nas obsessões. Nunca, porém, como personagem principal. Porque nunca fui na vida. E não seria nos livros que cometeria essa impostura.


Sigo atrás de sonhos impossíveis. Sou vaidoso. Sou inteligente. Eu sei que sou bonito. Talvez não atraente. Mas bonito. Sou ético. Tenho caráter. E jamais deixarei de acreditar naquilo que não se realiza. Porque escrever, no fundo, é isso. Um ato de fé desesperada. Um gesto antigo e aparentemente inútil. Como aprendi com Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, sigo na tentativa obstinada de sonhar um sonho impossível, de sofrer a angústia implacável, de pisar onde os bravos não ousam, de reparar o mal irreparável, de amar um amor casto à distância, de enfrentar o inimigo invencível, de tentar quando as forças se esvaem, de alcançar a estrela inatingível. Essa é a minha busca.


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