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Qual é a minha abordagem clínica nos trabalhos com luto, perdas, vínculos e relações?

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    temporacomunicacao
  • há 5 horas
  • 4 min de leitura

COLUNA DA PSICÓLOGA FRANCIELE SASSI


Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana

A Teoria do Apego, linha ou abordagem teórica que me utilizo na clínica para os atendimentos psicológicos, oferece uma das lentes mais consistentes e humanizadas para compreender o luto – isso porque a teoria explica sobre como formamos nossos vínculos desde o nascimento e como as aprendizagens moldam nossas formas de nos relacionarmos na vida adulta até a nossa morte. Ao propor que o ser humano é biologicamente orientado a formar vínculos, John Bowlby desloca o entendimento da dor da perda: sofrer não é um sinal de fragilidade, mas a expressão direta de um laço que foi significativo.


Desde muito cedo, aprendemos junto das experiências com quem cuidou de nós o que esperar do outro e de nós mesmos dentro de uma relação, se o mundo será um lugar seguro ou imprevisível, se nossas necessidades serão acolhidas ou ignoradas, se podemos nos aproximar ou se é mais seguro nos proteger. Essas vivências não ficam no passado, mas se organizam internamente como mapas emocionais que orientam nossas relações ao longo da vida. E é justamente por isso que o luto nunca é apenas sobre quem se perde. Esta experiência também revela como aprendemos a nos vincular.


Quando um vínculo importante se rompe, não perdemos apenas a pessoa, a relação ou o lugar que ela ocupava em nossa vida. Perdemos também as referências internas que sustentavam aquela ligação: rotinas compartilhadas, expectativas, formas de ser com o outro e até versões de nós mesmos que só existiam naquela relação. O luto, portanto, é um processo de reorganização psíquica profunda.


Autores como William Worden ajudam a compreender esse movimento ao descreverem o luto como um processo ativo, que envolve aceitar a realidade da perda, entrar em contato com a dor e, gradualmente, reconstruir a vida sem a presença concreta do outro. Já Margaret Stroebe e Henk Schut ampliam essa visão ao mostrar que o luto não é linear: ele oscila. Há momentos em que a dor se impõe com intensidade e outros em que a vida chama para continuar. Esse vai e vem não é incoerência, é parte do processo e precisa existir para que a elaboração vá se tornando possível.


Quando articulamos essas contribuições com a teoria do apego, algo importante se torna evidente: as formas como cada pessoa atravessa o luto não são aleatórias. Elas carregam a marca de como essa pessoa aprendeu, ao longo da vida, a lidar com proximidade, ausência, dependência e autonomia. Pessoas com um padrão de apego mais seguro tendem a conseguir reconhecer sua dor, buscar apoio e, com o tempo, integrar a perda à sua história sem que isso impeça a continuidade da vida. Não porque sofrem menos, mas porque aprenderam que podem contar com o outro e também consigo mesmas em momentos difíceis. 


Por outro lado, quem desenvolveu um apego mais ansioso pode vivenciar o luto com uma intensidade avassaladora, marcada por medo de abandono, dificuldade em aceitar a separação e uma sensação persistente de desamparo. Pessoas com um padrão mais evitativo, por exemplo, frequentemente lidam com a perda por meio do distanciamento emocional, tentando seguir em frente rapidamente ou minimizando o impacto da dor. Nesses casos, o sofrimento não desaparece — ele apenas encontra caminhos menos visíveis de expressão.


Perceber essas diferenças é fundamental porque nos afasta de uma ideia rígida sobre “a forma correta de viver o luto”. Não existe um único jeito saudável de sofrer. Existe, sim, a necessidade de compreender o sentido que aquela perda assume na história de quem a vive.


O luto também tem uma dimensão silenciosa, mas profundamente reveladora: ele reativa memórias emocionais antigas. Uma perda atual pode, muitas vezes, tocar experiências anteriores de ausência, rejeição ou separação que ainda não foram totalmente elaboradas. É como se diferentes camadas de dor se encontrassem, intensificando a vivência presente.


Por isso, em um processo terapêutico, olhar para o luto não é apenas ajudar alguém a “seguir em frente”. É oferecer espaço para que a pessoa compreenda o que aquela perda mobiliza dentro de si, quais vínculos ela revive, quais medos ela reacende, quais formas de amar e de se proteger entram em jogo.


No fundo, compreender o luto à luz da teoria do apego é reconhecer algo profundamente humano: nós sofremos na medida em que nos vinculamos. E a forma como atravessamos a dor da perda diz muito sobre a forma como aprendemos a amar, a confiar e a nos proteger ao longo da vida.


Assim, o luto deixa de ser visto apenas como um problema a ser resolvido e passa a ser compreendido como um processo que merece ser escutado. Um processo que, embora doloroso, carrega em si a possibilidade de transformação não no sentido de apagar a perda, mas de construir, a partir dela, novas formas de relação com a ausência, com a memória e com a própria continuidade da vida.



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