Quando a dor é compartilhada: o luto coletivo frente à tragédia do balão em Santa Catarina
- temporacomunicacao
- 24 de jun.
- 3 min de leitura
Coluna da Psicóloga Franciele Sassi
Existem acontecimentos que atravessam fronteiras, cidades e lares. Que rompem as barreiras de proteção da dor, uma vez que denunciam fatalidades que poderiam acontecer a qualquer um de nós. A queda do balão em Santa Catarina é um desses trágicos episódios que nos arranca do cotidiano, da previsibilidade e da segurança do continuum dos dias, e nos coloca, inevitavelmente, frente à vulnerabilidade da vida. Nos deixa expostos diante da falta de controle e sensação de impotência diante do que não consta no nosso script de vida.
Mesmo sem conhecer as vítimas, milhares de pessoas se sentiram profundamente tocadas, impactadas e entristecidas. Essa mobilização acontece, porque somos seres profundamente relacionais; vivemos e sobrevivemos nas interações que construímos com nossos pares. Somos afetados não apenas pelas nossas próprias dores, mas também pelas dores que testemunhamos no outro, o que chamamos de empatia, e que também convidam a revisitar as nossas próprias emoções.
A morte, especialmente quando acontece de forma trágica, inesperada ou com pessoas jovens, carregadas de vida, de planos e de sonhos, desperta em nós um sentimento coletivo de perda. Ativa memórias, aciona lutos antigos, traz à tona inseguranças, medos e nos lembra de uma verdade que tentamos, muitas vezes, esquecer: a vida é finita, frágil e imprevisível. É o controle que tanto tentamos ter e que nos foge das mãos, mostrando que não temos tanto poder assim sobre tudo que gostaríamos.
O luto coletivo surge nesse lugar onde a dor de alguns reverbera em muitos. Trata-se de uma manifestação da nossa humanidade, da nossa capacidade de empatia e compreensão, mesmo que inconsciente, de que a perda de um é, de certa forma, uma perda para todos nós. Afinal, se algo tão repentino pode acontecer com alguém, isso nos lembra que também somos suscetíveis, e que uma circunstância dessa magnitude pode acontecer com qualquer um de nós.
Tragédias como essa também nos confrontam com o valor da vida, com o quanto postergamos conversas, afagos, reconciliações. Nos fazem pensar sobre a velocidade com que vivemos, sobre o que priorizamos e sobre como, muitas vezes, deixamos para amanhã aquilo que só pode ser vivido hoje. Elas escancaram a urgência dos afetos, dos encontros e do cuidado. Pedem, com urgência, que o hoje não carregue pendências, que seja vivido intensamente.
Além disso, ao acompanhar as manifestações de apoio, tristeza e solidariedade nas redes sociais e nos espaços públicos, percebemos como a dor faz emergir o senso de união. Ainda que por alguns momentos, desaparecem diferenças, julgamentos e distâncias. Somos apenas humanos, impotentes diante do incontrolável, pequenos diante da infinitude de possibilidades do mundo, tentando entender o incompreensível e buscando, na conexão com o outro, algum conforto e sentimento de pertencimento.
O luto coletivo, apesar de doloroso, também revela uma potente face da existência: ele nos lembra que não estamos sós, que somos parte de uma teia onde a vida de um impacta, toca e importa na vida do outro. As relações são pontes de conexão com a vida em sua construção de significados. E, nesse processo, somos convidados a refletir sobre os nossos próprios lutos, sejam eles por pessoas, relações, fases da vida ou sonhos que não puderam ser vividos.
Por isso, que essa dor compartilhada não passe em vão. Que nos convide à empatia cotidiana, ao cuidado com quem amamos, à escuta mais presente, ao abraço mais demorado e à valorização dos momentos simples que, no fim das contas, são os que realmente importam.















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