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Quando foi a última vez que ouviste tua música favorita na íntegra?

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    temporacomunicacao
  • 26 de mai.
  • 3 min de leitura

Coluna de Diego Franzen, jornalista e escritor


A música é meu exorcismo sagrado. Quando o peso do rock invade meus ouvidos, os demônios que habitam em silêncio são expulsos em gritos e distorções. A música é o templo onde expurgo minhas sombras. E o rock, com sua fúria sagrada, é o ritual que transforma dor em liberdade.

Em tempos idos, quando os deuses da guitarra ainda tocavam do alto de seus tronos analógicos, ouvir uma canção era um ato solene, quase litúrgico, revestido de sacralidade. Lembro — com uma nitidez que só a memória afetiva permite — das madrugadas silenciosas em que, munido de uma fita K7 virgem, aguardava ansioso o momento epifânico em que a rádio, com sua programação caprichosa e indiferente aos meus anseios, decidisse finalmente conceder a graça de executar Carry On do Angra, com a voz inesquecível do maestro Andre Matos, ou, quiçá, um hino pagão como Stairway to Heaven. Não havia atalho. Era preciso esperar, perseverar, cultivar a paciência como quem cultiva um bonsai — ou um vinil raro.

Hoje, no entanto, nesta era de liquidez extrema, o rito se dissolveu na velocidade do clique. O streaming, onipresente e ubíquo, transformou o outrora demorado e calculado ato de fruir a música numa experiência instantânea, quase descartável. Numa interface limpa e asséptica, de posse de todas as gravações de Led Zeppelin, Iron Maiden e Angra, posso, paradoxalmente, não ouvir nenhuma delas com a reverência que merecem.

Eis a tragédia contemporânea: a abundância anestesia. O excesso paralisa. Saltamos de faixa em faixa como quem zapeia canais num hotel de trânsito, incapazes de permanecer, de habitar uma música, de deixar que ela nos contamine. A canção, reduzida a trilha sonora de uma rotina apressada, perdeu sua centralidade ritualística. Não mais a expectativa pelo solo transcendental de Page; não mais a comoção visceral ante o grito lancinante de Bruce Dickinson, nem o enlevo diante das complexas harmonias criadas por Rafael Bittencourt. Apenas um consumo apressado, fragmentado, superficial.

Há nisso uma melancolia que se esconde sob a enganosa promessa da acessibilidade. De fato, nunca foi tão fácil escutar música — qualquer música, de qualquer tempo, em qualquer lugar. Mas, à semelhança de quem se empanturra num bufê infinito e perde a capacidade de saborear, também nós, hipermodernos, desaprendemos a ouvir.

Quando, na adolescência, empreendíamos a odisséia de baixar The Number of the Beast por meio da internet discada — um processo moroso, sujeito a interrupções e falhas, e que exigia uma quase medieval devoção —, a música que, ao final, ressoava nos pequenos alto-falantes de computador parecia um troféu conquistado à custa de sacrifício. Ouvi-la era um compromisso; quase um pacto.

Hoje, entre as notificações do WhatsApp e o feed do Instagram, sequer damos à canção o tempo de seu compasso. Pulamos faixas, adiantamos solos, aceleramos intros. A música, esse engenho de emoções e técnica, cede à nossa pressa vulgar, transformada em ruído ambiente para academias, coworkings e playlists de "foco".

Pergunto, pois: quando foi a última vez que você ouviu sua música preferida inteira? Inteira — não apenas como trilha sonora de um deslocamento até o supermercado, mas como quem se entrega, inteiramente, ao invólucro sonoro, absorvendo cada riff, cada pausa, cada virada de bateria, cada nuance do vocal? Quando foi que, com fones de qualidade e espírito desarmado, você se permitiu ouvir um álbum do começo ao fim, como quem lê um romance clássico, sem pular páginas?

O Heavy Metal, gênero que elegi como extensão estética da minha alma, não se presta ao consumo apressado. Ele exige tempo, entrega, fôlego. Ouvir Angels Cry, Holy Land ou Powerslave exige disponibilidade emocional e cognitiva, demanda silêncio interior e ausência de distrações. São obras pensadas em sua integralidade, álbuns concebidos como narrativas musicais, não como simples coleções de faixas aleatórias.

O paradoxo é evidente: nunca tivemos tanto acesso à arte e, talvez, nunca tenhamos sido tão incapazes de fruí-la com densidade. Transformamos a música — esse fenômeno milenar, visceral, sublime — num background, numa companhia acessória, num apêndice descartável da nossa multitarefa cotidiana.

Fica, pois, o convite melancólico, quase quixotesco: ouça. Ouça com vagar, com respeito, com paixão. Retome o ritual que nossos tempos descartaram. Coloque o Led Zeppelin IV para tocar — e, por favor, não pule Going to California. Redescubra a potência do The Trooper sem adiantar o solo. Deixe que Time, do Dark Side of the Moon, o leve para o lugar onde as grandes músicas sempre nos levam: para dentro de nós mesmos.

Porque, no fim, não é a música que mudou. Fomos nós que nos tornamos surdos ao que ela, ainda, insiste em nos dizer.



Diego Franzen é jornalista escritor, autor de 14 livros. CEO da Tempora Jornal e Comunicação LTDA e gestor de conteúdo do portal PAUTA SERRANA
Diego Franzen é jornalista escritor, autor de 14 livros. CEO da Tempora Jornal e Comunicação LTDA e gestor de conteúdo do portal PAUTA SERRANA

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