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Quando o calendário vira espelho: Reflexos de dezembro em nós

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 2 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Coluna da psicóloga Franciele Sassi


Dezembro sempre chega com um certo peso silencioso. Não importa quantas vezes tenhamos vivido essa passagem, há algo no último mês do ano que convoca uma pausa — mesmo que a rotina siga acelerada. É como se o calendário nos empurrasse, mesmo contra a nossa vontade, para dentro de nós mesmos. As luzes, as festas, os rituais, as metas revisadas às pressas… tudo acaba funcionando como espelhos emocionais. E nem sempre o reflexo é confortável.


O fim do ano é também o fim de um ciclo interno. Em dezembro, muita gente sente uma mistura paradoxal: esperança e exaustão, gratidão e frustração, desejo de recomeçar e medo de encarar aquilo que não foi possível transformar. É um mês que amplifica o que já estava ali, às vezes adormecido. Pequenas tristezas ganham volume. Expectativas se chocam com a realidade. A comparação com os outros — ou com o que imaginávamos ser — se torna mais ruidosa.


Esse movimento interno tem impacto direto na saúde emocional. Os sentimentos que emergem em dezembro não acontecem por acaso. O fechamento de ciclo ativa memórias, balanços pessoais, revisões de escolhas. Para algumas pessoas, isso fortalece a clareza e o propósito. Para outras, causa angústia, ansiedade, sensação de insuficiência. O corpo responde: sono alterado, irritabilidade, dificuldades de concentração, necessidade de isolamento ou, ao contrário, de conexão intensa. Comportamentos mudam porque, emocionalmente, estamos em um período liminar — um intervalo entre o que fomos e o que ainda não sabemos se seremos.


É um mês que nos expõe às nossas vulnerabilidades. Dezembro lembra ausências, ativa o luto por pessoas, relações ou versões de nós mesmos. Evidencia a passagem do tempo. Coloca na mesa perguntas que evitamos durante todo o ano: “Estou vivendo o que desejo?”, “O que eu perdi pelo caminho?”, “O que ainda dói e eu não cuidei?”. Essas questões podem provocar uma sensação de urgência emocional, como se fosse necessário resolver tudo antes do dia 31. E isso, claro, só aumenta a ansiedade.


Mas dezembro também pode ser um convite para respirar mais devagar, para olhar com gentileza o próprio percurso. Para reconhecer conquistas invisíveis, resistências silenciosas, curas que aconteceram aos poucos. Um convite para entender que nenhum ciclo precisa terminar perfeito para que o próximo comece possível. Que a vida não muda por causa de uma virada de página no calendário, mas pelo modo como escolhemos nos relacionar com o que sentimos.


No fundo, dezembro é um lembrete de que somos humanos: feitos de balanços e recomeços, de cansaços e esperanças, de dores que nos atravessam e forças que nem sempre reconhecemos. Se acolhermos esse último mês com menos exigência e mais presença, talvez ele deixe de ser só um fim e passe a ser também um espaço de preparação — um intervalo honesto entre quem fomos e quem estamos aprendendo a ser.


Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre, colunista do Pauta Serrana.
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre, colunista do Pauta Serrana.


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