Ser um Cavaleiro no Século XXI
- temporacomunicacao
- 16 de jul.
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Coluna de Diego Franzen
Ainda que os castelos tenham se tornado ruínas turísticas e as espadas, peças decorativas vendidas por e-commerce, este mundo de tela vítrea e indignação em tempo real ainda clama por cavaleiros.
Não desses de armadura brilhante e cavalo branco, que hoje só servem para enfeitar bolos infantis em festas com tema medieval.
Mas daqueles que sustentam a própria palavra com o mesmo peso com que os antigos sustentavam uma lâmina templária.
Raros.
Quase mitológicos.
A honra, essa senhora idosa de passos trôpegos e óculos embaçados, vive tropeçando nas esquinas escorregadias da modernidade líquida, como bem nos advertiu Bauman. Ser honrado tornou-se um ato de resistência. Cumpra uma promessa, mesmo ínfima, e logo parecerá um fóssil caminhante, uma peça de museu extraviada no presente. Mantenha-se fiel à sua palavra e será visto, no mínimo, como um estranho, um anacronismo ambulante.
Compromisso, afinal, virou peça de antiquário, ao lado do VHS, do disquete e dos votos matrimoniais proferidos com alguma fé.
Mas o verdadeiro cavaleiro, e sim, ainda existem alguns, embora andem disfarçados em ternos puídos, jalecos, uniformes sem brilho, mochilas de entregador ou togas com cheiro de papel velho, sabe que o aço da espada nada é sem a têmpera da alma.
Ele compreende que coragem não se mede em curtidas, mas no silêncio que precede a escolha certa, feita quando ninguém está olhando.
E mesmo sem aplausos, sem testemunhas, sem holofotes, ele faz o que precisa ser feito.
Respeitar as mulheres não é uma gentileza protocolar de quem se acha superior. É, antes, a atitude natural de quem reconhece que o feminino é força, origem e destino.
Defender os mais fracos não é romantismo barato. É justiça em sua forma mais crua.
Enfrentar as injustiças, mesmo ao custo de feridas, é a única forma de permanecer limpo num mundo de mãos sujas.
Ainda há lugares e pessoas que nos ensinam, não com discursos, mas com a própria existência, a erguer espadas invisíveis de luz. Silenciosos, onde o verbo cala e o gesto fala, aprende-se que o verdadeiro poder não é o de ordenar, mas o de proteger.
Aprende-se que a verdadeira liderança não grita, mas guia. Que o exemplo é o metal mais nobre com que se molda um homem.
E que o tempo, este velho alquimista, ainda sabe transformar barro em bronze.
O cavaleiro do nosso tempo talvez jamais tenha empunhado uma espada. Mas domina a arte do verbo justo, do olhar firme, da conduta reta.
Caminha entre o caos com a serenidade dos antigos. Não busca coroa, não exige tributos, não pede exaltação.
Sorri pouco.
Mas olha nos olhos.
E não precisa de hino, carrega no peito o próprio cântico.
Foi pensando nesses homens silenciosos e persistentes, que não usam coroa, mas sustentam o peso das promessas que fizeram, que escrevi meu décimo quinto e mais novo livro: O Último Cântico dos Cavaleiros – Sob o Manto e a Espada.
Uma ode a esses que, mesmo feridos, não se ajoelham diante da mentira.
Porque enquanto existir um só homem que se levante contra a covardia, haverá esperança.
E haverá canto.















Prezado Diego, teu décimo quinto livro é próprio daquele rapaz alegre e tagarela que não gostava da ideia de que a vida é um fadonho "huhum", acredito que o grande cavalheiro é aquele que salva uma pessoa no cotidiano com coração compassivo e reto, oferecendo reforma íntima pelo exemplo e num jejum moral de quem doma um cavalo mustang interior. Que teu livro chegue nos feudos mais distantes e ajude com enfrentamentos de reflexão e lirismo atavico, mostrando que o grande cavaleiro pós moderno é aquele que não busca vencer com o elmo de quem não enxerga o próximo, mas que rompe a viseira e enxerga a luta do espírito contra o templo que perece. Abraço fraterno, do teu irmão…