Sexta-feira 13
- temporacomunicacao
- 12 de jun.
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Coluna de Diego Franzen
Por vezes, a superstição é apenas a tentativa ancestral de nomear o inominável. Outras vezes, é a memória persistente de uma tragédia transfigurada em mito, acorrentada à alma coletiva como uma cicatriz a céu aberto. A Sexta-feira 13, por exemplo, não é apenas a data em que Jason Voorhees emerge de lagos fictícios para retalhar adolescentes fogosos em filmes de terror. Antes disso — bem antes disso — ela era um sinal. Um presságio. Um epitáfio.
Para compreender sua origem, é preciso despir-se dos clichês cinematográficos e penetrar o âmago simbólico da história. E aí, caro leitor, entramos em terreno sagrado e maldito ao mesmo tempo. Entramos no domínio dos Cavaleiros Templários, essa milícia monástica que, entre espadas e rezas, alicerçou parte do que conhecemos como Ocidente.
Na noite lúgrube de 13 de outubro de 1307, uma sexta-feira, o rei Felipe IV da França — conhecido pela alcunha pomposa de le Bel, embora sua beleza fosse inversamente proporcional à sua ética — ordenou a prisão em massa dos membros da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, mais conhecidos como Templários.
Acusados de heresia, sodomia, idolatria e outros pecados cuidadosamente orquestrados por Guillaume de Nogaret, o chanceler real, os Templários foram açoitados publicamente, humilhados, torturados. Mas, como é da natureza dos mártires, resistiram. E Jacques DeMolay, o último Grão-Mestre da Ordem, resistiu até o fim.
Quando enfim foi levado à fogueira, sete anos depois, DeMolay não apenas expirou. Ele amaldiçoou. Com voz rouca e olhos ardendo mais que as chamas, lançou um voto terrível contra seus algozes: o papa Clemente V, o mesmo que negara abrigo aos Templários, o chanceler Nogaret, cérebro da conspiração, e o próprio Felipe, o Belo. “Todos vós sereis chamados para prestar contas perante Deus, antes de se completarem doze meses”, teria bradado.
E, como nas tragédias gregas, a maldição cumpriu-se com pontualidade divina. Um a um, os três pereceram. Uns dizem que foi coincidência. Outros, que foi justiça.
Desde então, a Sexta-feira 13 carrega esse espectro: o do injustiçado, o do traído, o do mártir. Um dia que reverbera a memória dos templários e de todo aquele que ousou, em nome da verdade, desafiar o poder instituído.
Mas a história não começa — nem termina — na Idade Média. Muito antes da cristandade entronizar o número doze como símbolo de perfeição (os apóstolos, os meses, os signos zodiacais), o treze representava o feminino, a lua, o ciclo da fertilidade. Treze são as luas cheias em um ano solar. Treze eram as reuniões das sacerdotisas em certos cultos da antiguidade.
Para os povos pagãos do norte da Europa, a sexta-feira era o dia de Frigg (ou Freyja), deusa do amor, da sensualidade, da magia. Celebrar a sexta-feira 13 era, pois, celebrar a força criadora do útero cósmico, da natureza, da intuição.
Um perigo mortal para as teologias patriarcais que logo se encarregariam de transformar essa simbologia em tabu. Da deusa à bruxa, da bruxa à herética, da herética à inimiga da fé. O que era sagrado tornou-se maldito. E assim o número 13 foi amputado das catedrais, ausente nos elevadores, excluído dos salões — como se se pudesse apagar, com arquitetura ou superstição, os ciclos da lua e da vida.
Seja pela espada dos Templários, seja pela foice dos sabás pagãos, a Sexta-feira 13 nos recorda que há um preço para quem ousa conhecer. Para quem ousa confrontar o status quo com a lâmina da lucidez. A história não é feita de coincidências. É feita de silêncios forjados. De narrativas manipuladas. De verdades degoladas em praça pública.
E aqui, neste 2025 saturado de deepfakes, algoritmos enviesados e manipulação em tempo real, o símbolo ressurge com uma pungência quase litúrgica. Em tempos de fake news, a verdade tornou-se um ato de resistência.
A busca pela verdade — como no caso de DeMolay — exige coragem. E, por vezes, martírio.
Portanto, quando a próxima Sexta-feira 13 amanhecer, que não seja com temor pueril ou risadinhas nervosas. Que seja com reverência. Com reflexão.
Que se recorde que um homem preso injustamente nesse dia e torturado por sete longos anos ardeu por manter-se fiel a um ideal. Que se lembre que antes de Jason, houve Jacques. E que a maldição mais temida não é a do azar, mas a da ignorância perpetuada sob o manto do medo.
Porque o verdadeiro horror, meu caro, não está nos filmes. Está na mentira que nos conta o que queremos ouvir.















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