São João e o Cântico do Solstício
- temporacomunicacao
- 24 de jun.
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Coluna de Diego Franzen
Há algo de ancestral na noite de São João. Algo que o tempo não apagou, apenas disfarçou sob bandeirolas e balões. É uma chama antiga, anterior ao calendário gregoriano, aos dogmas de Roma, às preces latinas. Algo que pulsa na carne e que, talvez por isso, pede dança.
É 24 de junho. É São João.
Não se trata apenas de uma festa popular, dessas que se repetem com fogueiras mansas, vestidos de chita e bandeirinhas que tremulam no vento do interior. Trata-se de uma epifania recorrente. De um acontecimento que vem de muito antes do calendário cristão, antes mesmo do Império Romano, antes da escrita fonética.
É o solstício de inverno (aqui no hemisfério sul), a noite mais longa do ano. Neste ano, a efeméride foi no dia 20, às 23h42min. E o homem, esse animal simbólico como diria Cassirer, jamais foi indiferente às dobras do tempo celeste.
Quando o Sol parece hesitar em sua jornada — solstitium, de sol + sistere, “o sol que para” — o espírito coletivo também suspende a respiração. E dança.
Dança-se para aquecer o corpo, é verdade. Mas dança-se, sobretudo, para aquecer o invisível.
No coração da Idade Média, nos claustros abafados por incensos e salmos, um monge lombardo, Paulo Diácono, compôs uma prece — e sem saber, forneceu a matéria-prima para um salto quântico na história da música:
UT queant laxis — para que possam,
REsonare fibris — ressoar as fibras do peito,
MIra gestorum — as maravilhas de teus feitos,
FAmuli tuorum — teus fiéis servos,
SOLve polluti — apaga a mancha,
LAbii reatum — dos lábios culpados,
Sancte Ioannes — ó São João.
Essa invocação a João Batista, composta em hexâmetros latinos, foi retomada, quase dois séculos depois, por um outro monge: Guido d’Arezzo. Ele, cuja mente clara e mãos diligentes não temiam as linhas do saber, percebeu algo extraordinário: as notas iniciais de cada verso formavam uma sequência ascendente. Era possível ensinar música com base em sílabas fixas. Assim nasceu a solmização, precursora do nosso sistema tonal.
Guido não apenas nomeou as notas — Ut, Re, Mi, Fa, Sol, La — como também desenhou o que viria a ser o tetragrama musical. Com ele, o som ganhou corpo. A música, que até então era transmitida por tradição oral, passou a ser escrita, preservada, multiplicada. E se, como dizia Pitágoras, o universo é feito de número e som, então Guido d’Arezzo foi um copista do cosmos.
Posteriormente, Ut foi suavizado para Do, por obra de Giovanni Battista Doni — veja, outro João — e acrescentou-se o Si, formado pelas iniciais de Sancte Ioannes. Eis, portanto, a escada mística completa, sete degraus que sobem da matéria ao espírito. Uma escala de redenção.
Mas tudo isso já era intuído pelos antigos. Pitágoras, o samiano, muito antes do Natal de Jesus, já dizia que o universo é harmonia — e que os corpos celestes produzem música em seus movimentos, uma música que não ouvimos por estar mergulhados nela: a chamada harmonia das esferas.
Esse conceito, que hoje faz sorrir os positivistas de gabinete, foi tomado a sério por Kepler ao escrever Harmonices Mundi em 1619, onde mostrou que os planetas dançam ao redor do Sol com proporções semelhantes às escalas musicais.
A música, então, não é invenção, mas descoberta. É arqueologia do cosmos.
E São João, com seus pés no deserto e os olhos fixos no Messias, foi também músico — não de instrumentos, mas de silêncios. Ele, que saltou no ventre de Isabel ao ouvir a voz de Maria, sabia: a vibração antecede a palavra. O som é anterior ao sentido.
É por isso que no solstício se acende o fogo e se canta. Porque o fogo é símbolo da presença divina, do rubedo dos alquimista, e a música é a escada de Jacó. Não se trata apenas de tradição, mas de liturgia da eternidade.
As festas juninas, mesmo com milho cozido, quadrilha e correio elegante, são um palimpsesto: sob a camada do folclore, permanecem os vestígios dos cultos agrários da Antiguidade.
Nas festas lupercais romanas, nas fogueiras de Beltane dos celtas, nos rituais de Juno e Ceres, sempre se celebrava o mesmo: o poder de fecundar a terra, o retorno da luz, o pacto da comunidade com o divino.
E ainda hoje, sem saber, celebramos isso. Mesmo nas metrópoles asfaltadas, mesmo com microfones e forrós elétricos. Pois o arquétipo resiste.
Afinal, como nos lembra Mircea Eliade, os ritos não servem para lembrar, servem para re-atualizar o mito. Toda fogueira de São João, por mais modesta que seja, reencena o drama cósmico: o Sol parece morrer, mas não morre.
Retorna. Renasce. Como João. Como o Cristo que virá depois.
É por isso que dançamos.
Não por festa. Mas por fé. Não por nostalgia. Mas por necessidade.
Pois, nesta noite em que o Sol hesita e o mundo parece escuro, ainda se ouve — no fundo da alma e talvez do universo — a prece antiga e eterna:
Sancte Ioannes...















O Texto é Incrivel, nos remete as origens, de nossas crenças , pois mesmo sem sabermos, está gravado em nosso DNA, uma indelevel lembrança, de tempos imemoriais, as quais ao chegarmos , pero do fogo, nos faz sentir uma nostalgia profunda, por algo que não vivemos, nem sabemos o porque.
Parabéns ao Jornalista e escritor Diego Franzen.
Excelente crônica para este abençoado dia!