Vinte e cinco anos de barulho e tinta invisível
- temporacomunicacao
- 11 de set.
- 5 min de leitura
Coluna de Diego Franzen
Hoje ergo um brinde, que poderia ser de champanhe francês. Mas é de café frio mesmo. A esta profissão que ainda resiste à própria extinção. Completo vinte e cinco anos de jornalismo. Vinte e cinco anos vendo a comunicação mudar de pele como uma serpente teimosa.
Comecei no Diário Serrano. E ali agradeço às pessoas que me fizeram ficar e seguir: Dirce Manfio, Tchô Antonello, Camila Candeia Paz, o senhor Riograndino Portes de Abreu. Aos colegas de redação, de rua, de café, que tornaram aquela experiência tão linda quanto divertida.
Em Bento, agradeço ao Grupo RSCOM, à Rádio Difusora, ao Jornal Gazeta, ao Serranossa. Também aos trabalhos que realizei em assessoria de imprensa, na Câmara de Vereadores de Bento Gonçalves, no Bento Vôlei e, mesmo que por poucos dias e sem a chance de fazer tudo que queria e podia, também no Clube Esportivo. Cada uma dessas passagens, longa ou breve, deixou marcas em mim e na minha história.
Lembro do unitexto, aquela geringonça jurássica que chamávamos de computador, como se fosse uma joia tecnológica.
Hoje escrevo de um notebook, às vezes até do celular, enquanto espero na fila do banco ou do pediatra.
E me espanto: não é que ficou tudo mais fácil e, ao mesmo tempo, mais cansativo?
Antigamente, quando alguém morria de forma trágica, para fazer a reportagem era preciso bater à porta da casa da família, pedir uma foto do falecido, muitas vezes oferecendo em troca a publicação do convite da missa.
Era duro, era constrangedor.
Mas havia ali um mínimo de solenidade, de respeito, de humanidade.
Hoje, basta abrir o Facebook ou o Instagram e a vida inteira da pessoa está escancarada, pronta para ser pilhada em nome da pressa.
A instantaneidade facilitou, sim, mas também esfarelou o peso da ética e do profissionalismo. Hoje qualquer curioso com celular e conexão 4G se sente um repórter premiado, ignorando limites, profanando memórias, transformando a dor em espetáculo.
E não há exemplo mais torpe do que a leviandade com que muitos divulgam suicídios, sem sequer ouvir falar do Efeito Werther, multiplicando tragédias e tingindo de sangue o palco digital.
Um jornalista de verdade, aquele que carrega honra no ofício, sabe que dignidade não está apenas no que se escreve, mas principalmente no que se decide não publicar.
O auge era o jornal impresso. Cheiro de tinta, dedos sujos, manchetes gritadas na banca. Hoje é peça de museu. Tem valor, claro. Mas está sendo ofuscado pela ditadura digital, onde cada alma é seu próprio editor e onde até o cachorro do vizinho tem canal no YouTube.
Eu, aliás, também tenho o meu. Um canal que soma 20 mil inscritos e onde já tive a honra de entrevistar muitos dos meus ídolos. É uma espécie de confissão pública de que o menino lá de trás cresceu, mas nunca perdeu o hábito de sonhar alto.
Mas é preciso dizer: o jornalismo de verdade precisa ser valorizado. Porque hoje qualquer idiota com um celular se julga habilitado a comunicar, a dar notícias, a formar opinião. Sem ética, sem honra, sem compromisso com a verdade. E assim tiram o espaço e o pão do profissional sério.
Somos atacados e vilipendiados diariamente, engolidos por essa guerra de narrativas entre uma suposta direita e uma suposta esquerda, ambas de um intelecto liliputiano, que transformaram o debate público num teatro de sombras medíocres. O jornalista que se mantém íntegro, esse, é cada vez mais um sobrevivente.
E eu? Eu pensei em desistir.
Pensei inúmeras vezes.
Nos dias cinzentos, penso de novo.
Mas sigo.
Sigo porque o vício da palavra é incurável.
Empreendi, criei a Tempora Comunicação, lancei o Portal Pauta Serrana. E mais, escrevi quinze livros. Quinze. Uma vida inteira enfiada em frases, capítulos, vírgulas e pontos finais que nem sempre são finais.
Vi o Brasil mudar, vi a vida mudar.
Eu mesmo mudei.
De menino sonhador virei pai. De rapazinho do jornal, escritor. De habitante de Cruz Alta, terra de Erico Verissimo, me tornei bento-gonçalvense por adoção há quinze anos.
Hoje, Bento é meu lar, meu teto e minha trincheira.
Cruz Alta, quando volto, já é só memória. Caminho por suas ruas e quase não reconheço rostos. O tempo transformou minha terra natal em lembrança. E lembrança, sabemos, é sempre mais poética que a realidade.
No velório do meu pai, em 2001, lá estavam meus colegas e amigos. Um dos homens mais cultos e admiráveis que conheço me disse naquele sábado lúgubre: "teu pai foi o cara mais inteligente que já conheci. Um baita cara." Eu já sabia, mas ouvir foi como um selo de eternidade. Eu admiro meu velho, e quero, um dia, ser admirado pelos meus filhos assim também.
Minha mãe, essa sim, é guerreira de verdade. Determinação, garra e amor incondicional. Sou muito feliz de ainda tê-la comigo e espero que a vida me permita desfrutar de sua presença por muito tempo.
Minha equipe, meus sócios, meus amigos, todos são pilares dessa história. E claro, aqueles que acreditam em mim. Os que patrocinam, os que leem, os que dizem um simples eu acredito em você. Essas vozes são combustível.
Desde a adolescência convivo com a depressão. Ela é uma sombra antiga, mas que nunca me paralisou por completo. A cada dia, enfrento-a com honra, coragem e certa dose de sarcasmo. Porque se é verdade que viver dói, mais verdade ainda é que viver sem humor seria insuportável. E todos sabem o quão zoeiro e sarcástico sou.
Hoje ergo este brinde imaginário ao menino que sonhava em pagar a academia e progredir nas artes marciais e ao homem que insiste em sonhar, mesmo com olheiras.
Não sei se os próximos vinte e cinco anos serão generosos. Mas sei que não macularei minha honra, porque a honra, ao fim e ao cabo, é a última palavra que ainda pertence apenas a nós mesmos.
E agradeço, de coração, a todos que estiveram comigo nessa caminhada. Aos que seguraram a corda quando eu pensei em largar. Aos que me ofereceram um sorriso, um gesto, uma palavra. Aos que acreditaram em mim mais do que eu mesmo. A esses, o meu reconhecimento. Porque se é verdade que a vida não é feita só de vitórias, é também verdade que só se chega até aqui quando não se caminha sozinho.
E agora, faço meu brinde final. Faça, chuva, sol, frio, calor, nada me afastará daquilo que sou. Hoje e amanhã estarei aqui, na sede da empresa, no Palazzo Del Lavoro, conduzindo palavras, tecendo histórias, iluminando a comunicação com coragem, ética e paixão.
Estarei aqui para cada notícia, cada entrevista, cada página escrita, porque o jornalismo é minha vida, e a vida, minha honra.
Este é o meu compromisso, meu pacto silencioso com o tempo e com todos que confiaram em mim.
E assim seguirei, enquanto houver tinta, tecla ou tela, é nisso que existo e é nisso que eternizo minha palavra.
Muito obrigado!















Comentários