A coragem que não fenece
- temporacomunicacao
- 8 de dez. de 2025
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Coluna de Diego Franzen
Sabem aquele momento, na vida dos sonhadores, em que a alma se recolhe à sombra e pergunta se vale a pena insistir? O passo era firme, o horizonte parecia ao alcance da mão, e de repente tudo se desmancha como pão dormido. O quase triunfo, o quase destino, o quase milagre. O sonhador conhece esse tormento de cor e salteado, essa sensação de que o mundo tem prazer em açoitá-lo no exato segundo em que ele ousa acreditar. E mesmo assim avança, meio torto, meio obstinado, como um cavaleiro deslocado de seu século que insiste em brandir virtudes que o mundo já tratou de enterrar.
É curioso, quase cômico, notar como o sonhador se culpa pelas quedas enquanto tantos por aí atravessam a vida com a leveza perigosa de quem não carrega nada dentro de si.
São criaturas ocas, voláteis, que mudam de rota conforme o sussurro mais caprichoso do vento. Não sustentam fidelidade, não conhecem raízes, não guardam sequer a memória de quem foram na manhã anterior. São mestres do afeto líquido, especialistas em evaporar. Vivem leves porque o peito é vazio, porque jamais carregam os pesos que dão forma à alma.
Talvez por isso durmam tão tranquilamente, embalados pela própria superficialidade, como quem repousa no colo de uma mentira confortável.
O sonhador não tem esse luxo.
Ele carrega a palavra dada como um relicário, e a palavra pesa.
Carrega a sensibilidade como uma lâmina fina, sempre pronta a feri-lo.
Carrega o romantismo arcaico de quem ainda acredita que sentir não é fraqueza, mas sinal de que a alma não foi vendida ao pragmatismo dos dias.
Em sua tolice sublime, continua acreditando que a honra ainda vale mais que a vantagem e que princípios não devem ser descartados como notas velhas.
E claro, isso o torna um alvo fácil para as armadilhas da vida, sempre tão criativa em inventar tropeços.
E a vida, essa velha debochada, sabe zombar dos que sonham.
Dá-lhes um vislumbre de realização, acena com a possibilidade, oferece o sonho de bandeja e, no momento mais alto, recolhe tudo num gesto teatral.
O sonhador cambaleia, pragueja, pensa em baixar a espada, cravá-la no chão e em nunca mais ousar lutar. Por um instante, acredita que finalmente vai se render ao cinismo elegante dos que nada esperam de ninguém.
Seria tão simples aderir ao coro dos que já desistiram de sentir.
Seria tão confortável juntar-se aos que migram de afeto em afeto como pássaros desorientados.
Mas o sonhador não nasceu para esse tipo de miséria leve.
A esperança nele é erva daninha.
A honra, esse artefato medieval, teima em sobreviver. E há ali uma chama antiga que se recusa a fenecer mesmo quando tudo ao redor parece ruir. Ele continua porque parar seria violência contra si mesmo, seria negar a própria essência, seria exilar o que há de mais puro dentro dele.
Enquanto os vazios deslizam conforme a onda e ajustam as máscaras à conveniência do instante, o sonhador segue com sua teimosia quase sagrada, guardando sentimentos que o mundo considera extravagâncias. E é justamente isso que o distingue. Não o êxito, não a glória, mas a recusa obstinada em deixar morrer aquilo que ainda pulsa com verdade.
E assim ele avança, ferido, às vezes cansado, mas inteiro. Porque, ao contrário dos voláteis, o sonhador tem alma. E quando a alma é inteira, a coragem não fenece. Nunca.
E no fim, apesar de toda a aspereza do caminho, amar ainda é bom. Sonhar ainda é bom. O sofrimento vem no pacote, como um tributo inevitável daqueles que se recusam a existir pela metade.
As lágrimas, essas pequenas jóias salgadas, não são sinal de fraqueza, mas enlevo de alma, lembrança de que estamos vivos e inteiros. A felicidade, essa travessa fugitiva, cedo ou tarde acaba nos alcançando, seja no destino ou na própria jornada. E vale a pena lutar por ela, sempre, mesmo quando o mundo nos pede o contrário. Porque viver sem essa busca seria apenas sobreviver, e o sonhador, teimoso e luminoso, nasceu para muito mais que isso.
Eu sou um sonhador, destes que a vida insiste em testar, mas que a própria alma impede de tombar. E me recuso, teimosamente, sagradamente, a desistir dos meus sonhos.
















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