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CARONTE

  • Foto do escritor: temporacomunicacao
    temporacomunicacao
  • 2 de jun.
  • 4 min de leitura

Coluna de Diego Franzen


Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 18 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 18 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana

Adoro aquela tirinha. Uma velhinha, a postura curvada pelo peso dos anos, pergunta ao barqueiro qual o destino daquela travessia bucólica. Ela sonhou a vida inteira conhecer Veneza, diz ela, com os olhos brilhando numa esperança senil. O barqueiro, com a fleuma de quem já viu impérios ruírem e almas se dissiparem, responde apenas: Caronte. A mulher arregala os olhos, um choque súbito de realidade atravessando a névoa do devaneio. Uma lágrima escorre pela sua face. E ela agradece.


É engraçado, é trágico, é hilário, é filosoficamente devastador. É a crônica perfeita da nossa condição humana. Ppassamos a vida inteira querendo visitar Veneza e acabamos descobrindo que, no fim, o ticket de embarque é unidirecional e o barqueiro não aceita cartão de crédito, apenas o óbolo da nossa própria existência.


(A tirinha de referência encontra-se abaixo desta coluna)


Para quem não habita os recônditos da mitologia grega, Caronte é o barqueiro sombrio de Hades. Sua função é transportar as almas dos mortos através dos rios Aqueronte ou Estige, que delimitam o mundo dos vivos do reino das sombras. Ele não é um carrasco, é apenas um funcionário da inevitabilidade. Cobra uma moeda, o óbolo, colocada sob a língua (ou olhos) dos falecidos para garantir a passagem. É o ponto final de qualquer biografia, o homem que nos conduz ao silêncio eterno.


Não canso de dizer e pensar que todos os dias eu sonho em ser um completo idiota. Seria um bálsamo, um atalho para a paz de espírito. O idiota recebe bênçãos gratuitas, coisas que nunca terei, vive na superfície rasa das coisas e sofre infinitamente menos com esses dramas existenciais que corroem as entranhas dos pensantes.


A ignorância, dizem, é uma dádiva.


Mas, infelizmente, para meu infortúnio, nenhum dos dois parece querer acontecer. Não me tornei o idiota que ignora o abismo, nem me livrei da agonia de contemplá-lo.


Em outra coluna recente, eu disse que aquele que quer empregar bem a vida deve pensar na morte. Li isso em uma parede, certafeita. Uma parede escura.


E tenho sido fiel a esse preceito, talvez até demais.


Penso na morte todos os dias. Não a desejo, longe de mim essa pulsão de morte, essa thanatomania estéril. Mas não a temo.


Tenho medo de morrer, porque o instinto de conservação é um mecanismo fisiológico que nenhum grau de erudição consegue deletar. Mas o conceito da morte, o seu estado terminal? Esse me é indiferente. Se o fatum decidisse encerrar meu ciclo hoje, eu não sairia de cena amargurado.


Teria a satisfação de quem jogou o jogo até a última carta. Deixei sementes, construí narrativas, plantei árvores que ainda farão sombra a desconhecidos, escrevi livros que talvez empoeirem em estantes, mas que, em algum momento, tocaram alguém. Realizei sonhos, mas, sendo honesto, também levo comigo o peso daqueles que jamais saíram do rascunho. E tudo bem.


A incompletude é o que nos torna humanos.


Ah, e esqueçam aquela conversa mole de velório festivo. Aquela hipocrisia de que não quero ninguém triste quando eu partir. Que bobagem. Se eu morrer, quero ver a plateia aos prantos, quero sentir o pesar, o vazio, o sofrimento genuíno. Textão nas redes sociais e imagens de luto eterno. Se não chorarem, o que terá restado da minha passagem?


O choro alheio é a medida exata da importância que tivemos na engrenagem da vida. É o atestado de que, por um breve instante, deixamos de ser apenas barulho para sermos música.


Mas, sejamos realistas, somos efêmeros. Nossas trajetórias, por mais grandiosas que nos pareçam, são apenas poeira estelar rearranjada em padrões temporários.


Passada minha transição, em alguns dias, serei apenas uma ausência notada pelos mais próximos. Em alguns anos, serei uma efígie desbotada em um porta-retratos ou um nome em uma placa esquecida. Apenas uma lembrança. E é exatamente aí que reside o sentido. O sentido não é a eternidade, uma quimera vendida pelas religiões e pelo ego.


O sentido é a intensidade do aqui e agora, a capacidade de habitar o presente com a voracidade de quem sabe que o barqueiro está logo ali, à espreita, com o remo em punho.


Minha mãe partiu em dezembro. Meu pai, há 25 anos. Foram algumas das pessoas mais iluminadas que o meu acaso pessoal me permitiu conhecer. Meu pai, com sua sabedoria pragmática, dizia que o amor e o perdão são a espada e o escudo de um verdadeiro cavaleiro, um paradoxo entre a contundência da lâmina e a suavidade da proteção. Minha mãe, com a candura de quem transita por campos etéreos, jurava que somos a imagem verdadeira de Deus, sinônimos de harmonia e perfeição.


O problema, caro leitor, é que a realidade é uma dissonância cognitiva permanente. Nunca vemos essa divindade. O que vemos é o ser humano em sua essência mais visceral, egoísta, imediatista, antropocêntrico, girando em torno do próprio umbigo como se fosse o sol de um sistema solar que, na verdade, é apenas um átomo num universo iplacavelmente indiferente às nossas vontades e sonhos.


Ainda assim, escolho a rebeldia.


Escolho, mesmo diante da certeza do nada, fazer tudo por aqueles que amo, sejam pessoas, animais ou causas perdidas. Não porque a humanidade mereça, mas porque eu decidi que é assim que a minha existência deve ser grafada.


Pois, no fim, quando encontrarmos o tal barqueiro, que ele não tenha apenas o nosso óbolo, mas que encontre em nós a dignidade de quem viveu, amou e foi autêntico.


Ao final da travessia, quem sabe possamos, como a velhinha da tirinha, olhar nos olhos de Caronte e simplesmente agradecer. Pelo passeio, pela história, pelo tudo.



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