EDITORIAL: O Brasil comemora 136 anos de República. Ou, como preferir, 136 anos de um golpe que nunca acabou
- temporacomunicacao
- 14 de nov. de 2025
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Por Diego Franzen

Feliz dia do golpe. De novo. Mais um ano para celebrar a data em que um punhado de fardas, fraques e bigodes decidiu que o Brasil precisava ser salvo de si mesmo e nos empurrou para o século seguinte com a elegância de um tropeço.
Centro do Rio, 15 de novembro de 1889. E lá se vão 136 anos desse experimento mal-ajambrado que chamamos de República. De lá para cá, colecionamos feitos que fariam corar qualquer república de banana, não pela vergonha, mas pela inveja da eficiência do caos. Três golpes de Estado, cinco repúblicas, três ditaduras, seis constituições, inflação galopante, censura, tortura, desigualdade crescente e uma sucessão de salvadores da pátria que só salvaram o próprio bolso.
Não se iluda. A monarquia não foi melhor. Não era um reino de justiça social. Trabalhava para as elites, como todo regime brasileiro desde sempre. Libertou os escravos tarde, aos trancos e barrancos, e os jogou à própria sorte, como quem arruma o quarto empurrando tudo para baixo da cama. Mas mesmo num país que nunca soube o que fazer com sua própria gente, surgiu um homem que destoou.
Dom Pedro II, o maior cidadão que este país já teve. Um improvável farol de decência num mar de oportunistas. Filho de um priápico que largou ao menino, aos 14 anos, uma nação inteira para administrar, como quem entrega as chaves da casa a um adolescente e diz se vira.
E ele se virou.
E como.
Dedicou-se ao Brasil com a obstinação dos românticos que acreditam que dá para melhorar o mundo com estudo, ciência e trabalho. Um homem que lia oito idiomas, conversava com cientistas, financiava artistas, visitava escolas, anotava tudo, imaginava um país digno.
E terminou exilado, velho, cansado, carregando um punhado de terra do Brasil no bolso, porque não o deixaram levar mais nada.
Dói, mas é bonito.
Uma dessas histórias que só a verdade verdadeira consegue escrever com tamanha poesia cruel.
E o que colocamos no lugar. A República proclamada sem povo, sem plebiscito e sem caráter. Um golpe fardado que inaugurou nossa tradição mais duradoura, tirar governantes à força e colocar improvisados no lugar.
De lá para cá, seguimos o baile. Golpe aqui, ditadura ali, um breve suspiro democrático acolá. Cada governo se dizendo o legítimo, cada líder se achando a voz do povo, cada autocrata repetindo que o problema é sempre a liberdade dos outros.
Porque, no fundo, no Brasil, ninguém é contra a liberdade de expressão. Só é contra a liberdade dos que discordam. Todos defendem o direito de falar, desde que seja para concordar.
E agora, 2025, aniversário da tal República. O que celebramos exatamente. A repetição. A reincidência. O eterno retorno. O Brasil administrado desde sempre por gente sedenta de poder, que veste o manto da moralidade enquanto passa a mão na caixa de ferramentas do Estado.
E já que falamos em moralidade, impossível ignorar a mais antiga e resistente instituição brasileira, uma que atravessou monarquia, república, ditaduras, redemocratização e que nem incêndio controla, porque sempre renasce. O machismo. Esse sim é nosso regime mais longevo.
A verdadeira “república velha”, onde a mulher sempre foi tratada como figurante em história escrita por homens que mal sabiam escrever a própria biografia. Até hoje, em pleno século vinte e um, tem quem ache normal que elas falem baixo, ganhem menos, trabalhem mais e agradeçam pelo privilégio de existir. Baixem a cabeça para homens escrotos, com a conivência e julgamento de muitas mulheres, inclusive. Pois estão acostumadas aos grilhões. Mas ainda bem que temos idealistas e ativistas em prol da das mulheres. Precisamos. Estamos em um país onde feminicídio virou indicador estatístico e assédio é tratado como mal-entendido. Mas claro, é tudo "exagero" delas, não é mesmo? (contém ironia)
E não pense que isso ficou no passado romântico das pinturas a óleo. Basta olhar para Brasília onde, entre gravatas, fardas e gel para cabelo, ainda tem muito homem que acorda acreditando que nasceu para mandar. E que mulher decidida é histérica, mulher ambiciosa é arrogante, mulher inteligente é perigosa. Não admitem igualdade, porque igualdade desmonta a farra dos séculos. No fundo, esses patriarcas de gabinete têm medo de que o país acorde e perceba que a única revolução que realmente ameaça os poderosos é a revolução de mulheres livres. Aí sim seria um golpe histórico, desses que valem comemorar.
E lá vamos nós, mais uma vez, vivendo numa terra que lembra aquela frase sussurrada em certas obras cinematográficas onde povos não deveriam temer seus governos, mas governos deveriam temer seus povos. Aqui é o contrário. Sempre foi. E, se nada mudar, sempre será.
E o futuro. Ah, o futuro. O Brasil é especialista em desperdiçá-lo. Expectativa realista, mais golpes disfarçados, mais messias de ocasião, mais discursos inflamados prometendo ordem e entregando só medo.
Expectativa otimista, que um dia a gente perceba que liberdade não é concessão de governante nenhum, não é tutela de farda, nem favor de gabinete. Ou de magistrado. É direito. E só floresce quando defendida.
E ainda assim há esperança ou teimosia, que no Brasil dá no mesmo. Porque somos um país que insiste em sobreviver a seus administradores. Um país cuja gente, quando pode falar, cantar, rir, criar, escrever e existir, mostra que ali, por baixo da fuligem histórica, ainda há brasa. E quem sabe, um dia, fogo.
E se, como já foi dito por aí, ideias são à prova de balas, talvez reste a nós cultivar ideias melhores.
Mas por hoje celebramos o que somos. Uma República que nasceu de um golpe, atravessou golpes e segue sendo golpeada, inclusive pela própria sorte.
Feliz dia do golpe. Até o próximo.















Na proclamacao da constituinte do RS trouxeram louvores aos farrapos, os netos ressuscitaram idealismos que estavam sepultados. A historia sempre conta num ciclo a deturpacao das obras dos sucumbentes ate que ululem em novos kharmas coletivos seculo depois, nossa bandeira gaucha tem ideais franceses, se observae o ciclo das revolucoes, temos apenas uma troca de lado na vitima pelo algoz em oportuno amor de Deus para que se resgatem algo. A mesma seiva wue alimenta a flor alimenta o espinho. Boa sexta Nobre Escriba! Que os povos despertem e cooperem em tempo!