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O Morro dos Ventos Uivantes

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    temporacomunicacao
  • há 56 minutos
  • 6 min de leitura

COLUNA DE DIEGO FRANZEN


Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana
Diego Franzen é jornalista e escritor, autor de 17 livros. CEO da Tempora Comunicação e Editor do Portal Pauta Serrana

Morro dos Ventos Uivantes está nos cinemas. Com a linda Margot Robbie como Cathy. Mais uma adaptação para as telonas de um clássico que emociona e nos traz grandes reflexões. E é sobre a mensagem do livro e a importância dele em minha vida que escrevo a coluna de hoje.


A primeira vez que ouvi "Morro dos Ventos Uivantes" não foi em sala de aula, foi na adolescência, quando conheci o estádio do Nacional de Cruz Alta, que tem esse nome, Morro dos Ventos Uivantes. Achei que era porque era em local alto e que ventava muito. E provavelmente sim. MAs tem uma referência direta e inegável, né? Eu joguei na base do Guarany de Cruz Alta, rival do Nacional. Era goleiro. Rivalidade existia, mas nunca levei muito a sério. Porque era muito massa Cruz Alta ter dois times, três se contarmos o antigo Riograndense.


Na época de jornada esportiva, aconteceu o milagre civilizador que o futebol às vezes opera, passei a ter um carinho enorme pelo Nacional. É curioso como a gente pode aprender, cedo, que existe vida além das nossas cores, e que o afeto é um bicho que atravessa alambrados.


Mas voltemos ao filme e ao livro, chega de divagações. Coisas de TDAH. Hoje, “Morro dos Ventos Uivantes” voltou a soprar por outro lado. Está nos cinemas uma nova versão cinematográfica do clássico de Emily Brontë, dirigida por Emerald Fennell, com Margot Robbie como Cathy e Jacob Elordi como Heathcliff, lançada em 13 de fevereiro de 2026. A cultura é assim, reapresenta o mesmo mito com roupa diferente e nos pergunta, com cara de quem não quer nada, se a gente finalmente amadureceu.


Eu não tinha amadurecido quando li o livro pela primeira vez. Achei um porre. Um desfile de ressentimentos num cenário onde o vento parece entrar até nos ossos do leitor. A adolescência é impaciente com certas dores. Ela prefere dores que brilhem, que deem para postar, que façam barulho. A dor de Brontë não é barulhenta. Ela é insistente.


Depois, li mais duas ou três vezes. E a cada retorno, o livro mudava de lugar dentro de mim, como se tivesse puxado uma cadeira e sentado mais perto. Talvez porque eu tenha ouvido, muitas vezes, a canção “Wuthering Heights”, da Kate Bush, lançada em 1978, com aquela interpretação que parece feita de névoa e febre, como se a própria casa falasse pela janela. A música é narrada pela voz fantasmagórica de Cathy, chamando Heathcliff, e isso não é um detalhe estético. É a chave moral do romance.


E talvez porque, no meu Brasil particular, essa canção também tenha ganhado outra vida na versão do Angra, na voz de André Matos, esse maestro do rock que foi um dos meus maiores ídolos. Entre a Kate Bush e o André Matos há um abismo de estilos e, mesmo assim, o que atravessa os dois é o mesmo assombro.


A história não termina quando termina. Ela fica. Ela ronda. Ela volta.


“Morro dos Ventos Uivantes”, publicado em 1847, é o único romance de Emily Brontë, lançado sob o pseudônimo Ellis Bell, porque ser mulher escritora, naquela época, era uma afronta pública. Emily ousou escrever quando o mundo ainda insistia em tratar a voz feminina como ruído doméstico, algo que se tolera, mas não se escuta. E o que ela nos entregou não foi um romance para suspirar. Foi um romance para encarar.


Porque aqui está a verdade, as humilhações sociais são o combustível do monstro.


Heathcliff não nasce pronto. Ele é feito. Amassado. Rebaixado. Transformado em ferramenta.


O livro mostra como conveniências e interesses podem virar algemas, como a etiqueta pode ser crueldade com luvas limpas, como o “seu lugar” pode ser uma sentença.


E então o amor, que deveria salvar, vira obsessão. Um amor que não quer o bem do outro. Quer posse. Quer acerto de contas. Quer vingança com perfume.


Eu vi amigas postando no Instagram que se apaixonariam por Heathcliff. O do cinema. Talvez pelo ator. Estão até postando frases do livro que, lidas fora de contexto, pode fazer Heathcliff parecer um cara romântico irreparável. Ele de fato tem apelo quando ele é recortado em frases bonitas e em closes cinematográficos.


A cultura adora domesticar o perigo.


Mas o Heathcliff do livro não é o “bad boy” de prateleira. Ele é cruel. Cruel a ponto de enforcar um cachorro só para provar que é mau. E que amaldiçou a mulher que mais amava no leito de morte dela. Isso não é romantismo. É ruína.


O que Emily Brontë faz, com uma coragem rara, é nos obrigar a olhar para a parte do amor que a gente preferia esconder atrás de filtros.


O amor desperta o melhor e o pior em nós. Porque existe um tipo de gente que usa “amor intenso” como álibi para o descontrole. Que chama ciúme de cuidado. Gente que chama ferida de destino. E existe um tipo de cultura que recompensa isso com likes, como se paixão fosse sinônimo de tempestade. E aí temos esse número assustador de Marias da Penha e feminicídios. Não é porque aumentaram os casos. É que agora eles vem à tona.


A nova adaptação, pelo que se discute lá fora, assume que não está “traduzindo” o livro, mas oferecendo uma “versão”, um recorte autoral. Eu não me escandalizo com isso. O cinema tem suas leis e suas amputações.


O que me interessa é que, toda vez que “Morro dos Ventos Uivantes” volta ao centro do palco, ele nos pergunta coisas que não cabem em trailer. Por que a gente confunde sofrimento com profundidade? Por que a gente acha que o amor precisa doer para ser real? Por que tanta gente se sente atraída por um homem que, no texto original, é uma espécie de laboratório do ressentimento? (ou vice versa).


E aqui mora o segredo do livro, ao menos para mim. “Morro dos Ventos Uivantes” não é sobre um casal. É sobre o que acontece quando a dignidade vira pó e alguém decide viver só para cobrar juros do mundo. É sobre como a violência pode ser educada, herdada, refinada. É sobre como o passado vira casa mal assombrada quando a gente se recusa a sair de lá. O vento uiva porque tem um mundo inteiro preso dentro daquela colina.


Este é um dos cinco livros favoritos da minha vida. E eu leio muito. Leio, porque ler é o meu jeito de conversar com os mortos sem ficar louco. E porque, às vezes, um romance do século XIX explica melhor o século XXI do que muita thread pretensiosa.


O livro nos desperta algo que é desconfortável admitir, a vontade de salvar o irreparável. A fantasia de que, se a gente amar bastante, a pessoa muda. A crença boba de que o amor é martelo e o outro é prego.


Não é.


Amor não é marreta.


Amor não é prova de resistência.


Amor não é arena.


Quando você diz “eu me apaixonaria por Heathcliff”, você está falando de quem, exatamente? Do homem que sofre ou do homem que faz sofrer? Do menino humilhado ou do adulto que transforma humilhação em método? Do romance que você imagina ou do romance que o livro descreve?


Talvez a pergunta valha para nós, aqui fora, longe das charnecas, longe do Morro, mas não tão longe assim do vento.


Porque todo mundo tem um pedacinho de tempestade. A diferença entre gente e monstro é o que a gente faz com isso.


E, nas entrelinhas, fica um desejo que não é literário, mas é humano. Que a gente aprenda a distinguir intensidade de crueldade. Que a gente pare de chamar veneno de paixão. Que a gente tenha coragem de escolher um amor que não precise uivar para existir. E, acima de tudo, jamais ficar calado ou inerte ante a uma injustiça ou ação violenta, seja ela física, psicológica ou emocional.


E é aí que eu, discretamente, deixo um recado que a vida real entende melhor do que a literatura: às vezes, dar uma chance para quem chega sem tempestade é um ato de inteligência emocional. Não tem uivo, não tem espetáculo. Mas tem respeito. E respeito, convenhamos, é o que sustenta qualquer casa quando o vento começa.


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