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Quando o amor não tem espécie: o luto por animais de estimação

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    temporacomunicacao
  • há 5 dias
  • 2 min de leitura

COLUNA DA PSICÓLOGA FRANCIELE SASSI



Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana.
Franciele Sassi, Mestre em Psicologia Clínica, Especialista em Lutos, Perdas e Suicídio, Especialista em Apego e Vínculos, Intervenções em Emergências Pós-Desastre e Colunista do Pauta Serrana.

Nas últimas décadas, as relações humanas estão se transformando profundamente. A configuração tradicional de família — centrada unicamente em relações parentais biológicas — tem dado lugar a formas diversas de vínculos afetivos. Nesse contexto, muitas pessoas optam por não ter filhos e, em vez disso, constroem suas vidas ao lado de animais de estimação que passam a ser membros centrais da família. Esses animais não são apenas companhia: eles participam das rotinas diárias, oferecem suporte emocional, afeto incondicional e tornam-se figuras significativas na vida de seus tutores. Por isso, para muitos, um pet não é “apenas um animal”, mas alguém com quem se divide afeto, cuidados, história e identidade pessoal.

A ciência confirma que os laços entre humanos e seus animais de estimação são reais, intensos e psicologicamente impactantes. E que o sofrimento após a perda de um pet pode manifestar-se em formas bastante semelhantes ao luto humano, com sintomas que incluem choque, tristeza profunda, dificuldade de aceitar a perda, sensação de vazio e até mudanças no funcionamento emocional e social. Para algumas pessoas, o luto pela perda de um animal de estimação pode ser tão profundo e duradouro quanto o luto pela morte de um parente ou amigo próximo.

Embora os manuais diagnósticos atuais reconheçam formalmente a possibilidade de transtorno de luto prolongado após a morte de uma pessoa, o impacto psicológico do luto pelo pet pode ser igualmente sério e merecedor de atenção clínica e social. Ainda assim, muitas pessoas enfrentam um fenômeno conhecido como luto não-reconhecido, em que a dor não é amplamente validada pela sociedade, levando a sentimentos de vergonha, isolamento e incompreensão, culpa, sensação de falta de sentido, alteração de rotinas e até sintomas físicos (como alterações no sono e no apetite), que são paralelos aos mecanismos emocionais observados em lutos humanos.

Outro aspecto importante e que é a base para a empatia e acolhimento da dor do enlutado é a compreensão acerca do papel do vínculo afetivo na intensidade do luto, ou seja, não é o tipo de animal que determina a profundidade do sofrimento, mas sim a força da ligação emocional estabelecida entre o tutor e o pet. Trata-se da representação do vínculo.

Diante disso, é essencial reconhecer o luto por um pet como uma experiência válida de dor e perda, digna de acolhimento, espaço emocional e, quando necessário, de cuidado profissional. Minimizar essa dor — por exemplo, comparando-a automaticamente com perdas humanas ou dizendo frases como “era só um animal” — não apenas desconsidera a profundidade do vínculo, como também pode retraumatizar quem está enlutado e dificultar a elaboração do sofrimento.

O luto por animais de estimação não é um fenômeno menor: ele está enraizado em vínculos afetivos autênticos e materiais, reconhecidos pela literatura psicológica como capazes de desencadear reações emocionais intensas e duradouras. Reconhecer e validar essa experiência — tanto social quanto clinicamente — é um passo importante para promover acolhimento, saúde mental e uma compreensão mais empática das diversas formas de amar e perder na vida contemporânea.

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